Literacia e expansão de escolaridade primária em Portugal, 1940-62

O Plano dos Centenários foi um programa de construção de escolas massivo que projectou um aumento de 60% do número de escolas primárias existentes no país. Saiu agora um artigo académico, co-autorado por Pedro Maia Gomes (Birckbeck College, University of London) e Matilde Machado (Univerdidade Carlos III, Madrid) que estuda o impacto causal deste plano. Usando técnicas estatísticas modernas e cuidadosas, mostra o enorme sucesso do mesmo: foi responsável por 80% do aumento de inscrições e 13% do aumento de literacia das gerações afectadas. Uma versão de acesso livre está disponível neste link.

O artigo também apresenta evidência que apoia a tese que eu e o Jaime Reis temos avançado sobre o indiscutível sucesso das políticas educativas (a nível da escola primária) do Estado Novo ser em grande parte explicado pelo alinhamento cultural entre o Estado Novo e as crenças culturais, e nomeadamente, religiosas, de grande parte da população portuguesa da altura. Nomeadamente, o aumento de literacia é maior em áreas do país com uma maior fracção de católicos, o que teria encorajado os pais a enviar as suas crianças para a escola.

Convém aqui recordar que objectivo de artigos académicos como estes não é político. O objectivo é compreender o que é que se passou, e porquê; não é fazer julgamentos normativos. Não é disso que se trata. Eu nem sequer sou católico, por exemplo. Mas os pais daquelas crianças eram!… Na investigação, queremos compreender o que se passou, apenas isso. E em Portugal, uma das questões mais importantes da História é porque é que um país que se torna claramente atrasado relativamente à Europa Ocidental no século XIX, começa apenas a arrancar em força em meados do século XX.

O artigo do Pedro Gomes e Matilde Machado foi o primeiro dos quatro artigos que vão sair sobre a História Económica de Portugal no número especial da Journal of Iberian and Latin American Economic History (anunciei anteriormente esta iniciativa aqui). Os artigos vão sendo postos online gradualmente pela revista, sendo que depois serão agrupados nesse número especial. A minha introdução como editor convidado desse número especial também já saiu e pode ser consultada aqui.

Foi para mim um prazer ter lidado com este artigo, assim como com os outros que serão, a seu tempo, publicados nas próximas semanas, e sobre os quais aqui voltarei a escrever.

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Portugal e a Grande Depressão

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Dei ontem uma breve entrevista ao Expresso sobre (a ausência de) impacto do crash de 1929 e da Grande Depressão em Portugal. Pode ser lida aqui (artigo completo apenas para assinantes).

Fica aqui um resumo: a ausência de efeito explica-se pela falta de integração da economia portuguesa nos mercados internacionais e pelo elevado peso da agricultura na mesma. Salazar tentou fazer um aproveitamento político da situação, mas não foi o principal responsável.

História da PIDE

Um novo blogue de Duncan Simpson, investigador no ICS, é dedicado a cartas de denúncia para a PIDE. O Duncan Simpson abre com uma notável carta de uma avó que denuncia uma neta de 30 anos por andar a ler um livro sobre o Amor em Liberdade, considerado pornográfico pela avó. Ver também o artigo relacionado do Duncan Simpson na Análise Social.

A PVDE/PIDE/DGS era uma instituição sinistra que, a partir da democracia, quase passou a definir Estado Novo, confundindo-se com o mesmo no imaginário popular (e também no de alguns historiadores).

Na verdade, o Estado Novo era muitas coisas e a PIDE apenas uma delas, mas esta instituição repressiva era sem dúvida uma parte integral desse regime político. As suas condenáveis práticas são sem dúvida um dos piores aspectos do regime. O Estado Novo foi responsável por uma política económica de bastante sucesso para o país (ver também aqui), mas negava a liberdade, social e política, que tem valor só por si.

No entanto, é preciso não esquecer que havia mais apoio da parte do público pelo regime do que por vezes se imagina. É preciso não esquecer isto quando pensamos na pergunta: porque durou o Estado Novo tanto tempo? É essencial compreender o que muitos historiadores não querem compreender devido às suas preferências políticas – o Estado Novo não era apenas repressão vinda de cima. Também havia muita repressão “vinda de baixo”.

Ajudar à internalização disto é, do meu ponto de vista, a maior contribuição que o trabalho de Duncan Simpson nos poderá trazer.

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Addendum, publicado minutos depois do post inicial: Para clarificar, o alvo principal da avó não era a neta, já que o nome da mesma não é dado na carta. Não seria representativo uma carta de uma avó dando o nome da neta.

Ou seja, a avó não denuncia tanto a neta mas sim implicitamente os editores do livro e o facto de tais livros serem autorizados a circular em Portugal. Mas ao fazer isto, está indirectamente, como é evidente, a ajudar a evitar que outras raparigas possam ler tais livros.

Artigo do Expresso sobre a economia portuguesa no longo prazo

Esta Sábado o Expresso dedicou 2 páginas ao meu trabalho com o Jaime Reis, e também com o António Castro Henriques. O Jorge Nascimento Rodrigues fez um bom sumário em que explica e contextualiza o nosso trabalho.

De momento o artigo do Expresso só está disponível para assinantes, mas o trabalho principal a que o artigo se refere é o que eu já me referi aqui neste blogue – ver aqui.

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Para compreender as crises bancárias em Portugal

Portugal tem tido problemas bancários recorrentes desde o início do século.

Quem queira perceber, por exemplo, o caso Berardo (e outros do género), só tem que ler o livro “Fragile by Design” de Calomiris e Haber. O livro já tem uns anos, e os autores não sabem de certeza quem é o Berardo, nem outras personagens Lusitanas do género, nem nada que tenha a ver com política nem crédito mal parado (e o contribuinte a pagar) em Portugal — mas está lá tudo explicado. Não é complicado, nem surpreendente, pelo contrário.

Aliás, os casos futuros também estão lá estão explicados. Até diria mais: também está lá explicado porque é que num país como Portugal, o mais provável é este tipo de coisa continuar a acontecer (a não ser que legislação Europeia o evite, e existem alguns passos nesse sentido, ainda que por enquanto provavelmente insuficientes).

O primeiro capítulo sumariza o argumento dos autores e pode ser lido gratuitamente aqui. Também é possível ouvir uma entrevista áudio com o primeiro autor, aqui.

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