APHES: alguns passos na direção certa

A Associação Portuguesa de História Económica e Social (APHES) é especial para mim. Penso que fui a todos os congressos entre 2012 e 2022. No congresso de 2012, o primeiro a que fui, ganhei o prémio da “melhor comunicação apresentada por jovens investigadores no Encontro anual da Associação.” Aprendi bastante com inúmeras comunicações que ouvi nos congressos da APHES ao longo dos anos, e lá conheci muitos amigos e até co-autores.

Na Assembleia Geral do último congresso da APHES de há uns meses atrás, eu critiquei a forma arcaica e contrária à internacionalização e ao interesse dos seus membros como a associação estava a funcionar. Fiz isso em pessoa, na Assembleia Geral, e também resumi alguns dos pontos que disse aqui. Disse também que por tudo isso, ia refletir se voltaria a ir a mais encontros da APHES.

Lembro que em Itália, historiadores económicos de primeira linha como Giovanni Federico e Michelangelo Vasta, entre outros, tiveram de criar uma organização paralela à associação de história económica existente há décadas, por terem concluído que esta última não era reformável. Nunca tive a intenção de fazer isso em Portugal; espero que a APHES se reforme, mas se isso não acontecer, paciência – mas nesse caso, não contem comigo.

Tenho dúvidas sobre se a APHES é reformável, mas tenho esperança que sim. Fiquei muito contente de ver o call for papers que saiu recentemente. Muitas das críticas que fiz na Assembleia Geral foram tomadas em consideração. Nomeadamente, ao contrário do que aconteceu o ano passado, há finalmente:

  • Um bom site, e em inglês;
  • Keynote speaker de qualidade e anunciado com antecedência
  • O call for papers disseminado aos canais internacionais
  • O prémio Pedro Lains anunciado

Lembro que o prémio da APHES para jovens investigadores, que na assembleia-geral de 2021 foi aprovado, por proposta minha, ter o nome do Pedro Lains (que apoiava bastante os jovens e tinha falecido pouco tempo antes). Mas não foi dado em 2022, porque a direção anterior não se deu ao trabalho de tratar disso. Isto revelou uma enorme perguiça – e sinceramente, egoísmo – da direção que estava em vigor em relação aos mais jovens. Fico contente de ver que isso está a ser revertido.

A data também se manteve no verão, cumprindo o que defendi na Assembleia Geral (onde a minha proposta ganhou por poucos votos, mas ganhou). Continua a existir um tema para o congresso, o que é uma tolice que na prática afasta pessoas que não estejam a trabalhar nesse tema arbitrário, mas enfim, é uma questão mais secundária do que as outras.

O que descrevi em cima foi sem dúvida progresso, que não está certamente alheio do afastamento da anterior presidente, que era incompetente (já porque é que a FCT escolhe uma incompetente para fazer parte da direção deveria espantar-nos… ou não). Alguns dos membros da atual direção vieram da direação anterior, e quero ser claro que não estou a criticar todos. Tenho boa impresão da maior parte da atual direção. Reitero que o que se passou agora foi progresso na direção certa, e reconheço que muitas das críticas que fiz foram ouvidas.

Ficam no entanto alguns conselhos à direção atual da APHES (e também à comissão organizadora do próximo congresso). Lembro que o meu objetivo em sugerir isto é o mesmo de sempre: melhorar o contexto e oportunidades disponíveis para os académicos que trabalham nestes temas em Portugal:

Primeiro, o congresso deve ser anunciado não apenas no Twitter e eh.net (o que já é bom e progresso em relação ao passado) mas também noutras plataformas internacionais, e por “passa palavra” com bons investigadores/as internacionais. Deve ser também enviado outra vez um lembrete pelo eh.net cerca de uma semana antes do prazo, mais uma vez lembrando quem será o keynote (como foi feito da primeira vez). A localização do congresso em Portugal deve ser enfatizada.

Segundo, devem haver listas concorrentes para a próxima direção. Pelo menos, deve ser dada a oportunidade a quem quiser para apresentar uma lista e programa. Clarifico que eu próprio não estou interessado, e que se apenas aparecer uma lista, então tudo bem. Mas deve ser anunciado com tempo e horas a possibilidade de listas concorrentes se apresentarem e terem um programa eleitoral. O que não é aceitável é à última hora ser apresentada uma lista única, sendo a sua eleição um fait accompli.

Terceiro, o programa deve ter pelo menos 50% dos papers / sessões em inglês. Também devem existir menos sessões paralelas, e mais controlo de qualidade. As sessões em inglês devem estar separadas das em português no programa. Também deve haver cuidado para não haver sessões com temas muito próximos à mesma hora, dentro do possível. Tudo isto vai contribuir de forma credível para a internacionalização da associação. Notem que não estou a dizer que penso que se devem proibir apresentações em português.

Quarto, o prazo de candidaturas não deve ter extensões anunciadas mais tarde. Aliás, já devia ter sido agora mesmo anunciado isso mesmo: que não vão existir mais tarde extensões do prazo de envio de candidaturas “a pedido de muitas famílias”. Essas extensões são lamentáveis e dão uma vantagem injusta aos portugueses que já contam com as mesmas, relativamente a candidaturas internacionais para apresentar papers. Anunciar agora mesmo que não vão existir extensões iria ajudar a parar a tentação que vai existir de ceder a pressões nesse sentido, que vão certamente aparecer mais tarde.

Não sei se voltarei a ir a encontros da APHES. Veremos como será o programa deste ano, e qual a direção que será eleita. Nessa altura decido e anunciarei o que decidir, e porquê. Depois, seja qual for a minha decisão, não voltarei mais a este tema. Para já, as notícias são positivas: o anúncio agora feito sobre o próximo congresso foi um passo na direção certa, e por isso mesmo merece os meus parabéns.

p.s. a primeira versão deste post sugeria que o anúnico tinha sido feito no Twitter mas não no eh.net. Depois uma pessoa próxima da direção disse-me que esse anúncio tinha sido feito. Fica aqui a correção.

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Os mitos de Portugal (outra vez)

Por falta de tempo, deixo aqui apenas duas notas.

Primeiro, a entrevista ao Observador, no programa “Justiça Cega”, de Ana Carla Almeida, conhecida pela intreferência do governo contra a sua nomeação para a procuradoria Europeia há uns 2 anos, quando já se sabia que aí viria o PRR. O que conta sobre a falta de recursos para combater as fraudes com fundos Europeus é impressionante, e vale a pena ouvir. Como diz Ana Carla Almeida, vão chegar a Portugal 50 mil milhões de euro até 2030. (Já o PRR, que não são fundos estruturais, é de mais de 15 mil milhões). Continua a ser consensual em Portugal que quanto mais dinheiro da Europa chegar, melhor – e que, pelo contrário, o problema é não ser tudo executado! O Governo, o Presidente da República, e até economistas como Ricardo Arroja insistem nessa tecla. Como já tenho argumentado, essa forma de pensar está, a meu ver, completamente errada (ver também aqui ou aqui).

Segundo, a narrativa tradicional do atraso educativo que o Estado Novo teria deixado ao país continua bem viva e com grade destaque mediático. Esta semana, o Presidente da República apresentou um livro escrito por outro político, que simplesmente repete a narrativa convencional sobre esta matéria. Reza a sinopse:

“Numa análise lúcida e reveladora, percebemos que muitos dos problemas atuais da educação têm raízes no Estado Novo.”

E escreve o atual Presidente da República, no Prefácio:

“O autor demonstra por que razão a educação foi um dos flagrantes fatores de retardamento nacional”.

Esta é uma narrativa que a investigação científica desmente por completo (em acesso aberto aqui). Na verdade, o Estado Novo foi o regime que acabou com o problema secular do analfabetismo em Portugal, e correspondeu a uma rápida convergência educacional do país com a Europa. É esta a verdade histórica. O sucesso do regime nesta dimensão especialmente numa primeira fase até aos anos 60 – aliás, outra coisa que o livro falha em completo, é o timing do que mais importou e quando – não pode ser negado (nem o sucesso económico entre os anos 50 e o final do regime). Por muito que custe a quem tem uma imagem poética do mundo, para a qual a verdade pouco importa.

Mas o que é que a verdade histórica interessa aos políticos do presente? Os “sábios” que por aí andam, talvez por acharem que sabem tudo, desconhecem (ou querem desconhecer) a extensão do atraso do país no início do século XX. O sucesso do Estado Novo a nível educativo não desculpa coisa nenhuma a nível político, mas tem que ser reconhecida com objetividade, até para não servir de desculpa perguiçosa aos que estão a falhar no presente. Mas é demasiado tentador para tantos políticos enaltecer o seu próprio papel, e encontrar bodes expiatórios. É útil existirem fantasmas. O mesmo fazem certos académicos, nomeadamente falsos historiadores, ou seja, estoriadores, que por aí andam, sempre com o “fascismo” na boca…

Estas duas ideias – que quanto mais dinheiro da Europa chegar, melhor, porque vai gerar convergência, e que o atraso do país se deve ao Estado Novo – não são verdadeiras, mas são consensuais. Não são mitos do partido dominante em Portugal, o PS; são “verdades” do regime. E por isso, vão durar. São os mitos sobre os quais o regime está construído. Como já tenho dito – e sou um defensor da democracia, e da União Europeia – estes mitos só vão mudar de fora: quando a política Europeia face a países como Portugal mudar. Quanto mais depressa, isso acontecer, melhor.

Portugal continua agarrado a narrativas que o futuro vai mostrar serem falsas. Um dia isso será consensual. E quando esse dia chegar, os políticos do presente serão vistos como figuras do seu tempo, sem qualquer importância ou capacidade de análise, especialistas em lindos discursos enquanto o barco afundava. Serão todos esquecidos, que é o que merecem. Mas esse dia ainda está longe. Só uma mudança intelectual e política a nível Europeu pode fazer esse dia chegar mais depressa. E até lá, Portugal vai continuar na letargia em que se encontra.

Anatomia de um Estado: Portugal, 1367-1844

Para quem não tenha visto, deixo aqui uma ligação para um novo artigo, que resumi em inglês aqui. O artigo em si está aqui. Infelizmente, as circunstâncias em que este artigo saiu não foram as mais felizes, devido aos boicotes sucessivos que o meu trabalho encontra em Portugal, mas essa história contarei noutra ocasião.

Noto para uma audência lusa que o nosso artigo mostra, entre outras coisas, como estavam fundamentalmente erradas algumas vacas sagradas que se ensinam em Portugal – neste contexto, refiro-me por exemplo ao trabalho de António Manuel Hespanha – mas duvido que tenha grande impacto (pelo menos para já) na academia portuguesa, pois esta recusa-se a atualizar-se ou a fazer reformas.

No entanto, algumas pessoas entre as gerações mais jovens compreendem melhor a realidade, ainda que para sobreviver muitas vezes sintam necessidade de não confrontar quem tem poder e quer manter tudo como está. Veremos o que acontece.

Sobre a academia portuguesa: feudal, endogâmica, incompetente, e cobarde

Nota: Obviamente, como em tudo na vida, existem excepções. Há ótimos académicos a trabalhar em Portugal. Mas são isso mesmo: excepções.

Vale a pena ler esta notável entrevista de Jorge Duarte Pinheiro, professor associado com nomeação definitiva da FDUL (a partir da página 3). Não por dizer novidades relativamente ao que já se sabe genericamente dos bastidores, mas apenas por ter tido a coragem de as fazer publicar, mesmo trabalhando para a FDUL. Escreve ele, entre outras passagens que valem a pena ler:

“Quem está na parte de baixo da escala, não tem identidade nem precisa de ter. Exige-se que se encontre em estado de prontidão, para se bater pelas causas que forem determinadas pela vontade (ou capricho) dos seus superiores”

A academia portuguesa existe numa atmosfera de medo, ameaças de represálias, e boicotes aos mais jovens. Falo por experiência própria, já que eu próprio já fui mais que uma vez alvo disso, apesar de ser menos vunerável que outras pessoas. Há infelizmente muita autocensura e graxa subserviente aos superiores/decisores pelos que dependem do sistema para viver. Os mais velhos frequentemente comportam-se de forma vergonhosa, com a bebedeira do poder. O que Pinheiro descreve parece-me ser uma boa descrição do que se passa na academia (quase toda) em Portugal. Existem diferentes níveis de cinzento, como é evidente, e há pessoas a fazer boa investigação apesar de todas as barreiras. Mas são casos raros, e os cinzentos geralmente variam entre o cinzendo-escuro e o negro.

Os júris dos concursos são quase sempre de má qualidade, apenas nacionais, e alguns nomes repetem-se demasiado, de forma suspeita. O nepotismo impera. As decisões são frequentemente conhecidas desde a partida. Os conflitos de interesse quase ominipresentes. O mérito académico, no sentido em que é compreendido nas boas universidades internacionais, é irrelevante. A academia portuguesa recusa-se a sair do atraso estrutural em que se encontra há séculos. Mas também há muitos, especialmente entre os mais velhos que mandam, mas também (ainda que menos) entre alguns dos mais novos, que simplesmente não querem aceitar que há problemas, insistindo, por exemplo, na utlilização da língua portuguesa para comunicações e publicações científicas (escrevi sobre um exemplo recente aqui). Nunca vão admitir que são medíocres e adoram chafurdar num ambiente provinciano e feudal de conflitos de interesse e invejas (apesar de muitos no fundo saberem bem isso). É mesmo inacreditável como existem por aí catedráticos que nunca fizeram investigação – ou fizeram investigação de qualidade duvidosa – e ainda por cima alguns nem aulas dão (ou dão aulas de péssima qualidade). Nas poucas instituições dedicadas à investigação que existem, a situação é ainda mais paradoxal: não dão aulas, mas também não investigam grande coisa.

Soube de vários concursos recentes nas áreas em que trabalho em que, como quase sempre, foram escolhidas pessoas da casa. Pior: pelo menos num caso, em que vi a lista, praticamente só concorreram pessoas da casa, e todos os melhores classificados também eram da casa. As pessoas – incluíndo potenciais candidatos internacionais – não são parvas, e não querem perder o seu tempo. Na lista, em que se mostra que se mostra os candidatos “aprovados em mérito absoluto e ordenados em méritos relativo” mais de metade são da casa, assim como todos os que aparecem nos primeiros lugares da lista. Tudo isto é impensável numa boa universidade.

Nunca mais acabam os problemas destes concursos, nalguns casos feitos à medida, tantas vezes com peso excessivo para divulgação/outreach – ou seja, uma obsessão míope com mediatismo – e enfim, sempre com critérios muito suspeitos, com júris anunciados com antecedência, de baixa qualidade e/ou com conflitos de interesse claros. (Nota importante: não concorri a nenhum destes concursos, nem tenho intenção de alguma vez vir no futuro a concorrer a concursos em Portugal, até porque prezo a minha liberdade de pensamento e de expressão, que se são cada vez mais limitadas em Portugal.)

Nunca concorrem estrangeiros a tais concursos nacionais, a não ser nos raros casos em que já sejam da casa. A endogamia é nauseante. Note-se que isto não é, de todo, o que acontece nos concursos das boas universidades a nível mundial, em que há pessoas de todo o mundo a concorrer. E a ganhar, quando o CV fala por si. Em Portugal, são tudo péssimos sinais, mas sempre ignorados pelos inúteis júris. Gostam das coisas assim. Já foi assim com eles. Foi assim que conseguiram os seu próprio emprego, que jamais teriam conseguido se tivessem existido regras justas. E é tudo escolhido a dedo para se manter assim. As capelinhas académicas feudais ficam como estavam. O mérito que se lixe.

Há quem defenda, mesmo a nível internacional, que os países do sul da Europa não conseguem publicar bem, nem existe tanto financiamento científico a ser recebido como a Europa do Norte por haver descriminação. Nalgumas áreas poderá haver um pouco de verdade nisso – por motivos menos lineares do que se pensa – mas devia ser evidente que a realidade é bem mais complexa. Na verdade, os países do sul da Europa – e Portugal é mesmo dos piores nesta matéria, e em tudo o que tenha a ver com ciências sociais é mesmo péssimo – não querem reformas. Nestas áreas, Portugal mantém tudo como está: e está muito mal. Logo, não tem que haver espanto com a falta de sucesso internacional. É simples: os “nomes” dos “intelectuais” que impressionam os media e os políticos em Portugal contam zero a partir de Badajoz. E ainda bem.

Com a falta de reforma que leva a estas endogâmicas elites académicas portuguesas que se perpetuam, e com as elites políticas que conhecemos e que tantas vezes com o anterior grupo se confundem numa intragável sopa de conflitos de interesse e ideologia disfarçada de ciência, talvez não seja surpreendente que o que está a acontecer a Portugal. Não existe um debate intelectual sério sobre o que explica o atraso estrutural do país nem a divergência que está a acontecer. São já 4,4 milhões de portugueses – cerca de metade da população – que estão no limiar da pobreza, ou abaixo (1,9 milhões) desse limiar (560€/mês). Até os jornais correntes já falam disso abertamente. (O que não quer dizer que alguém que lá escreva consiga identificar correctamente a verdadeira fonte dos problemas; mas essa é outra matéria.)

É notório como Portugal, que não é uma democracia plena, tem caído bastante em vários indicadores. Portugal caiu bastante em indicadores relevantes entre 1996 e 2007. Nos World Governance Indicators do Banco Mundial, em “Government Effectiveness” recuperou um pouco na última década e chegou a um máximo em 2017, mas tem voltado a cair. Já “Regulatory Quality” e “Control of Corruption” têm vindo a cair continuamente desde 1996 até aos dias de hoje.

Da minha parte, continuo a pensar que o atraso e a divergência explicam-se pelos motivos que expliquei aqui. E também por isso, continuo muito pessimista sobre o futuro de Portugal. Tudo indica que Portugal vai ser um país cada vez menos democrático, e cada vez mais pobre.

Quanto à academia, vai continuar com a mesma péssima qualidade e atraso em que se encontra há mais de 200 anos.

A poesia anula a ciência?

Sei que o meu post anterior sobre a falsificação da História feita por Irene Pimentel gerou incómodo em certos círculos.

Não sei se houve relação, mas poucos dias depois saiu um poético (?) artigo de um ex-embaixador de Portugal e ex-ministro da cultura, chamado Luís Castro Mendes, que depois de nos contar episódios da sua vida, que considera de interesse público, termina com a seguinte passagem:

E pensar que, segundo o economista Nuno Palma, da Universidade de Manchester, esses anos constituíram o período mais glorioso do crescimento económico de Portugal nos últimos anos…

Fizeram-me chegar este artigo pouco depois de sair mas não liguei, até porque sinceramente tenho mais que fazer do que responder a patetices, e sobre mim escrevem-se muitas e dizem-se mais. Mas ontem alguém me falou disso e por ser Domingo, consegui agora uns momentos para clarificar o seguinte, a quem venha por bem.

Primeiro, o arranque para o crescimento económico moderno em Portugal aconteceu nos anos 50. Que foram taxas de crescimento impressionantes, as quais continuaram até ao final do Estado Novo é um facto plenamente estabelecido em História Económica há décadas, e reconhecido, assim como estudado, por académicos que eram esquerda como Silva Lopes ou Pedro Lains. Não se comparam com o crescimento medíocre da economia desde 2000. Foi um período de convergência económica com a Europa, e agora estamos a divergir. Tudo isto são factos. Devem ser interpretados. Mas negá-los é o equivalente em ciências sociais a insistir que a terra é plana.

Segundo, sei que muitas pessoas não sabem a diferença entre crescimento e níveis de rendimento, e esse senhor pode ter essa limitação cognitiva. O país estar a crescer não quer dizer que não era pobre, mas apenas que estava a tornar-se rapidamente menos pobre. Este senhor não percebe, ou não quer perceber isso. Mas isso não o impede de escrever os seus disparates nos jornais.

Terceiro, sobre o adjetivo glorioso escrito pelo dito, é claramente introduzido de forma desonesta para dar uma carga normativa que não corresponde a nada que eu alguma vez tenha dito sobre o período ou regime. Desafio quem quiser a encontrar e mostrar onde eu elogiei o Estado Novo num plano político. Nunca o fiz, como já ficou demonstrado várias vezes. Mas repetir isso ad nauseam é demasiado tentador a quem quer sujar-me. Mas não passa de um truque baixo, como já notou o Henrique Pereira dos Santos (obrigado, Henrique por ter escrito isto e me ter enviado).

Sobre os factos básicos, repito, Irene Pimentel e amigos chamam “mentiroso” a quem diz que a terra é redonda, por isso enfim, não há muito a acrescentar. Esta resposta deixou-a Pimentel ao Henrique Pereira dos Santos no link em cima:

A ciência avança de funeral em funeral, como terá dito Max Planck. Infelizmente, esta senhora e amigos vão passar a vida a repetir os dogmas de que se convenceram. Nada a fazer, e nenhuma evidência científica alguma vez os há de convencer de algo diferente.

Eu podia enviar uma resposta a Luís Castro Mendes a um jornal, mas não estou para isso. A palermice do ex-embaixador e ex-ministro nem merece estas linhas. Ontem alguém próximo lembrou-me do caso e resolvi esclarecer aqui isto, por ter tido agora alguns minutos. Esta gente só está habituada a respeitar outros políticos e tudólogos que adoram ir à TV. Já eu, ainda esta semana recusei outro convite para ir à TV, neste caso um convite da RTP2. Simplesmente, o meu horizonte temporal é diferente.

Sei que em Portugal grande parte da intellighenzia não pode comigo. As invenções e as mentiras sobre mim – algumas são autênticas campanhas, umas mais elaboradas que outras – nunca mais acabam. Há por aí muita inveja e tentativas de proteger capelinhas feudais. E no país estruturalmente atrasado que é Portugal, onde o domínio cultural da esquerda (e da extrema-esquerda) é absoluto, sou um alvo para muitos, por não me encaixar nas ortodoxias e narrativas respeitadas nesses círculos. Mas o que eu faço é ciência, não política, e a nível político eu não posso sequer ser caracterizado de forma simples como sendo de direita ou esquerda, já que esses são conceitos muito sumários e limitados. Seja como for, infelizmente, penso que o país vai continuar a polarizar e um dia também serei alvo do Chega, que também critico (esperem para ver, fica a previsão…).

Por vezes irritam-me as mentiras por serem tão repetitivas, mas importo-me menos com os insultos do que muitos pensam. Nos círculos académicos fora de Portugal, o meu trabalho é muito mais reconhecido que dentro. Os meus trabalhos são ensinados em dezenas de universidades de topo nos EUA, Reino Unido, Holanda, ou até na China (entre outros países). Estou confortável com isso e menos preocupado com o que alguns intelectuais medíocres portugueses pensam sobre mim. Ainda há dias, por exemplo, Deirdre McCloskey, que tem uma extensa obra publicada de História Económica, me definiu na Folha de S. Paulo como “um historiador econômico jovem e brilhante”. É apenas um exemplo, e apenas uma opinião (ainda que mais distinta do que a dos que pensam o contrário). Apenas o futuro, talvez longínquo, dirá quem tem razão.

Até lá, a minha mensagem para os políticos e académicos endogâmicos portugueses é simples (notando que também há bons intelectuais em Portugal mas a esta mensagem é para a maioria, que é medíocre, feudal e desonesta): só o tempo há de mostrar quem tem razão sobre a interpretação da nossa História, e também sobre o que se tornou e para onde vai Portugal. Pelos motivos que já tenho explicado, penso que o mais provável é que vai ser um país cada vez mais pobre, especialmente em termos relativos, e cada vez menos democrático – infelizmente. Outros são bem mais otimistas. Esses, afirmo, estão com toda a probabilidade errados, e a prazo serão todos esquecidos. Veremos: ainda nós, os mais jovens, ou as próximas gerações.

Se tivesse mais tempo, esta carta seria mais curta – disse um intelectual de outros tempos. Neste caso este post não é mais curto porque não estou para o voltar a escrever: estou-me nas tintas.

Falsificar a História, versão Irene Flunser Pimentel

Detestar um regime político deve dar o direito de falsificar a História? 

Para um verdadeiro Historiador – ou Historiadora – evidentemente que a única resposta possível é não.

Mas é exatamente isso que a “estoriadora” Irene Pimentel faz nesta entrevista. 

Vejamos então alguns exemplos dos disparates que esta senhora diz na entrevista:

I.F.P.: Hoje ainda, defensores do Estado Novo, muitas vezes por ignorância, difundem a ideia de que Salazar diminuiu o analfabetismo, que introduziu os três anos de escolaridade, quando não dizem quatro anos, quando, na verdade, ele os reduziu, de quatro para três. Depois, o Estado Novo tem uma enorme duração e, evidentemente, nos anos 60, o analfabetismo era menor do que nos anos 30, mas sempre muito superior ao da média europeia.

Na realidade isto é completamente falso.

Vamos por partes. Primeiro, o Estado Novo foi na verdade o primeiro e único regime que resolveu o problema secular do analfabetismo em Portugal (entre as crianças, resolvendo por isso o problema a prazo). Foi um processo que começou ainda com a Ditadura Militar/Nacional, antes de 1933. O analfabetismo uma barreira histórica fundamental para o desenvolvimento do país que assim foi levantada. É esta a evidência científica publicada nas melhores revistas científicas internacionais. (Versão em acesso aberto aqui; e ver também este excelente artigo sobre o Plano dos Centenários.) O resto é propaganda, e o palco constante dado a Irene Pimentel pelos media em Portugal é informativo sobre o atraso do país (e sobre a vontade que a senhora tem de aparecer, ao contrário de mim por exemplo, que recuso ir à televisão ou a dar maior parte das entrevistas que me pedem).

Sobre a redução de quatro para três anos, é uma confusão constante de quem insiste em confundir leis e regras de jure com a realidade no terreno, de facto. Os 4 anos obrigatórios da Primeira República eram pura ficção! Daí mais de metade das crianças acabarem analfabetas. O Estado Novo reduziu isto para 3, numa primeira fase, como parte de um esforço mais amplo de fazer o possível, em vez de utopias impossíveis. Ver por exemplo também o excelente trabalho da Matilde Machado e Pedro Maia Gomes sobre esta matéria: o plano dos centenários (construção de escolas) foi uma decisão política. Aumentaram em 60% do número de escolas primárias existentes no país. A falácia das leis bonitas que não saem do papel é uma constante da História de Portugal. E era isso a Primeira República.

A insistência de Irene Pimentel que nos anos 60 o analfabetismo era muito superior à média Europeia também corresponde a uma enorme desonestidade, ou na melhor das hipóteses, confusão. Em primeiro lugar, no que toca às crianças, isso não é verdade. Em finais dos anos 50, o analfabetismo entre as crianças estava essencialmente resolvido. Logo, não podia ser (sic) “muito superior” ao da média Europeia. Segundo, no que toca aos adultos, é evidente que esse era um problema que vinha de trás. O analfabetismo era um problema secular para Portugal, país que no início do século XX era o mais analfabeto da Europa. O Estado Novo fez o maior esforço da Históra de Portugal para resolver isso. Foi o regime que resolveu o problema, levando à convergência. É verdade que numa primeira fase o esforço foi limitado princiapalmente à e escolaridade básica, mas fazia sentido começar por aí. A estratégia resultou. Isso deve ser reconhecido, fria e factualmente, sem julgamentos de moral constantes, e principalmente sem mentiras com a de Pimentel quando nega que o regime tenha diminuido o analfabetismo.

Probabilidade de ser ter diferentes níveis de literacia. 1=analfabeto, até 5=Aprovado no exame do 1o grau ou classe, ou superior. . Fonte: Palma and Reis (2021). Note-se que me mesmo os indíviduos de contexos socio-económicos mais desfavorecidos no Estado Novo tinham uma probabilidade de não ser analfabetos parecida com a dos mais ricos na 1a República.
Probabilidade de um homem de 20 anos ter diferentes níveis de literacia. 1=analfabeto, até 5=Aprovado no exame do 1o grau ou classe, ou superior. Fonte: Palma and Reis (2021). Note-se a gigante queda da probabilidade da categoria 1, e a enorme subida da 5. Estes dados dizem respeito a indivíduos de 20 anos de idade medidos até 1950. Entre as crianças, o analfabetismo foi essencialmente resolvido de forma definitiva ainda nos anos 50.

Depois Irene Pimentel ainda diz:

I.F.P.: (..) um ataque à cidade, porquê? Porque Salazar odiava os grandes falanstérios, as grandes creches, as grandes fábricas onde os operários se juntavam, faziam greve, se revoltavam contra o Estado… ele quer eliminar isso tudo.

Isto é uma tolice completa. É um mito relacionado com o anterior: a ideia de que Salazar gostava de um país pobre, rural, e analfabeto. Na realidade, o Estado Novo correspondeu a um período de rápida industrialização e urbanização do país, especialmente a partir dos anos 50. Veja-se o seguinte gráfico, que mostra a estrutura do emprego da economia portuguesa (% do emprego total), 1953-1973, por setores. Lembro que o setor industrial é o secundário e os serviços o terciário. A agricultura, que o Estado Novo supostamente tanto adorava, é o setor primário:

Fonte: Pinheiro (1997)

Diz ainda Pimentel:

I.F.P.: O fim das escolas mistas também tem esse propósito, cada um no seu lugar ... Cada um no seu lugar, cada um com a sua função, as mulheres no lar a educar, esposas dos seus maridos, eles, teoricamente, a ganharem o salário.

Se Pimentel tivesse lido o meu trabalho – nunca publicou em qualquer revista académica ou editora séria internacional, mas já perdeu tempo a escrever um artigo palerma para o Público contra mim, só que ler e tentar perceber o meu trabalho, isso não, já que opinar é mais fácil- saberia que na verdade essa política de separação dos sexos nas escolas foi um enorme sucesso que levou muitos pais a meter os filhos na escola. E o mesmo foi verdade da natureza Católica do regime, incluindo mandar meter cruxificos nas salas de aulas. Quem venha por bem, que leia a secção 5.2., página 429, do nosso artigo. (Também disponivel na página 29 e seguintes da versão em acesso aberto.)

A razão é simples: o povo era conservador. Para a monarquia, educar o povo não era uma prioridade política (pelas razões que Jaime Reis explicou nos anos 80, disponível aqui). Já a Primeira República até queria educar e construiu escolas, mas falhou. Porquê? porque o que tentou fazer seria como num país árabe ortodoxo hoje querer que as mulheres fossem para a escola sem hijab. Resultado: os pais não as punham na escola! não é possível desenvolver um país contra a cultura dominante do mesmo. Aliás, como Jaime Reis e eu explicamos no nosso artigo, até o republicano J. Camoesas tinha reconhecido publicamente em 1923 que a política de não separação de géneros e anti-clerical da República estava a falhar. Culturalmente, o país no início do século XX não era o que é hoje. Isto devia ser evidente.

Enfim, eu podia continuar a chorrilho de disparates que representa a Irene Pimentel, mas não vale a pena. Quem queira ler sobre as matérias que ela escreveu, que leia antes trabalho de Duncan Simpson.

Do alto do seu patético prémio Pessoa, Pimentel tornou-se uma senadora da República mas o seu trabalho é sempre mau. Note-se aliás, que o “prémio” é absolutamente idiota e totalmente desconhecido fora das nossas fronteiras – apesar de eu reconhecer que já houve (uma minoria) de casos em que foi bem dado, por exemplo no caso do Henrique Leitão, que é excelente. Mas até um relógio parado acerta duas vezes por dia.

Termino notando que também eu, politicamente, condeno o Estado Novo em absoluto. Sempre o fiz, ao contrário do que por vezes dizem. Aliás, desafio quem quiser a encontrar declarações minhas em sentido contrário. Mas o que é falso é a ideia de que a culpa do atraso de Portugal se deve principalmente ao Estado Novo. Na verdade esse regime até correspondeu a um período de enorme convergência económica e educativa do país com a Europa Ocidental. Olhar para 1974 e dizer “ainda estávamos atrasados” é idiota pois ignora a enorme convergência das décadas anteriores que aconteceu com esse regime. Nada disso perdoa a polícia política nem a ditadura, mas isso é uma discussão à parte: não é preciso nem faz sentido misturar, e muito menos falsificar a História para sujar o regime o mais possível. Sujou-se o suficiente a si próprio!

Quem queira saber mais, pode ver outros posts nexte blogue de divulgação, ou ouvir alguns podcasts que tenho dado, como este ou este. E para quem queira saber ainda mais, há sempre os trabalhos científicos originais, a que me referi em cima. O que é essencial é não misturar questões positivas (descritivas) e normativas, como fazem os que têm objetivos políticos não declarados, como Irene Pimentel, Fernando Rosas, Pacheco Pereira, e tantos outros. Não são historiadores. São estoriadores. Não passam de políticos.