Quanto mais o país falhar, mais Salazar (e Passos) vão ter as costas largas

Previsão: Quanto mais o país falhar nos próximos anos ou décadas – quanto mais empobrecer e divergir da Europa, e quanto mais o PS se confundir com o próprio Estado – mais Salazar (e Passos Coelho ou Cavaco Silva) vão ter as costas largas. Um dia até a própria União Europeia há de ter imensa culpa de tudo. E os Chineses. E os Americanos. Todos menos quem governa.

Essa narrativa só vai aumentar de tom. É conveniente reescrever a História. Sempre aconteceu isso em todos os regimes, e o de hoje não é diferente. Como terá dito o propagandista nazi Joseph Goebbels, “uma grande mentira repetida muitas vezes torna-se verdade”. É desta estratégia que são fãs políticos como o eurodeputado Pedro Marques que são especialistas em fake news, por mais que sejam desmentidos:

Note-se que aqui Pedro Marques também volta a exibir a sua ignorância e falta de rigor ao chamar ao Estado Novo um regime fascista, quando era na verdade uma ditadura nacionalista de direita, mas não era fascista segundo os critérios históricos que definem o que quer dizer fascismo. Salazar era um essencialmente um conservador social; fascismo é diferente, como afirmam claramente os verdadeiros especialistas. Aliás os verdadeiros regimes fascistas tinham orgulho nisso, mas o Estado Novo nunca se definiu a si próprio como tal. Ter sido uma ditadura, e tudo o que isso implicou em termos de direitos humanos e privação da liberdade, é suficiente para condenarmos o regime. E o sucesso a nível do desenvolvimento do país que o Estado Novo conseguiu também não o justifica de alguma forma, como eu sempre disse; apenas torna ainda mais chocante o desastre económico de Portugal entre 2000 e o presente. Apenas houve 15 anos de convergência com a Europa durante a democracia: 1985-2000. É um facto vergonhoso que responsabiliza em particular o principal partido do atual regime: o PS. Mas como eu sempre disse, e disse claramente no MEL: a liberade é um fim em si. E daí também serem preocupantes as tentativas de condicionamento que são ataques à liberdade e à ciência: um bom exemplo é este tweet de Pedro Marques.

No tweet de das 10.52am de hoje, Pedro Marques já se desmentiu a si próprio (tinha afirmado no artigo Público que eu não tinha mencionado a polícia política no MEL, e já lhe mostraram ser isso falso), mas mesmo assim insiste na sua superioridade moral: ele mentiu, mas o fascista sou eu. Já na minha entrevista ao Jornal Económico (que foi publicada ontem) eu tinha dito que ao nível das constantes mentiras e deturpações em que vale tudo em nome dos votos e da sinalização de virtude e superioridade moral para sua própria legitimação, não há grande diferença entre Donald Trump e políticos como Pedro Marques, Ana Catarina Mendes, Miguel Costa Matos ou Pacheco Pereira. As reações de hoje de Pedro Marques e Pacheco Pereira no Público de hoje só vieram confirmar isso.

E é tudo o que tenho a dizer para os próximos tempos, até porque o meu trabalho é dar aulas e fazer investigação, e não estar a responder a quem quer fazer política e para isso mente descaradamente. Fazem-no porque não percebem (ou não lhes interessa perceber) a diferença entre afirmações factuais e normativas. Pedro Marques insiste hoje no seu artigo do Público que a minha afirmação de que o Estado Novo foi o período da nossa História em que mais convergimos com a Europa corresponde ao meu “branqueamento” esse regime. Na verdade, como tenho explicado repetidamente, é simplesmente uma afirmação factual a nível histórico e científico, sem qualquer conteúdo político, e está em linha como o que já diziam há muito economistas de esquerda que estudaram o assunto rigorosamente como Silva Lopes ou Pedro Lains (ver também aqui).

É evidentemente Pedro Marques (e tantos outros) quem está tentar branquear a responsabilidade do Partido Socialista pela desgraça económica em que o país se tornou nos últimos 20 anos. O PS tem governado o país desde 1995, com a breve excepção de períodos de crise: Durão Barroso a seguir ao “país de tanga” que Guterres deixou, e Passos Coelho que tomou o poder em 2011 com a casa a arder e teve de implementar o memorando de entendimento que Sócrates assinou e tinha sido sua responsabilidade, pagando depois o governo de Passos o custo político da austeridade. É para criar uma cortina de fumo sobre tudo isto que Pedro Marques e outros estão disponíveis para falsificar a nossa História para seu benefício eleitoral. Quem queira saber mais, pode ler este post anterior (espero não ter que escrever mais posts sobre esta matéria mas irei na medida do possível continuar a atualizar a secção “extras” no fim desse post anterior, com breves comentários às notícias que vão saíndo, enquanto a minha paciência durar. Respondo aí brevemente ao também desonesto artigo de Pacheco Pereira do Público de hoje).

O Zé Povinho faz hoje 146 anos. Vai continuar a sofrer.

Entrevista ao Jornal Económico

Aqui fica a minha entrevista ao Jornal Económico deste fim de semana, que saiu hoje (ligação fechada aqui). Os meus agradecimentos ao jornalista João Marcelino pela entrevista e por autorizar a minha reprodução da mesma aqui. Corrigi apenas uma gralha relativamente à versão publicada. Aproveito para também aqui anunciar que não tenho intenções de continuar esta saga, mesmo que mais políticos e jornalistas desonestos e continuem a esperenear contra mim e contra o que foi de facto a nossa História. Não pretendo protagonismo com isto: na sequência da controvérsia, agradeci mas recusei convites para ir à televisão e para escrever para o Observador. Quem se quiser informar tem neste post e no anterior toda a informação necessária. Irei apenas atualizando o final do post anterior com o que for saíndo que ache relevante.

Ficou surpreendido com a polémica levantada em consequência da sua intervenção na 3ª Convenção do MEL? 

Não fiquei surpreendido.

(Se a resposta à pergunta anterior for ‘sim’, diga-me) Porquê?

Está arrependido por ter aceite o convite para falar na convenção?

Não.

Qual foi a principal mensagem que procurou fazer passar na sua intervenção sobre a necessidade do crescimento e as causas da divergência de Portugal com a Europa? 

A principal mensagem foi que a situação atual em que estamos é gravíssima, a maior parte das pessoas não está consciente do que se está a passar. Estamos a ficar cada vez mais pobres em relação à Europa. As gerações futuras em Portugal estão a ficar comprometidas. Isto está-se a passar há mais de 20 anos. Isto devia abrir todos os jornais, todos os dias.

Eu também falei das causas. Há causas próximas, e outras mais profundas ou fundamentais. As próximas são as más políticas económicas: leis laborais desadequadas ao mercado de trabalho do século XXI, e justiça que não funciona, por exemplo. Mas há eleições em Portugal, por isso as causas mais profundas prendem-se com o apoio de uma parte substancial da população ao partido dominante do regime, o PS, e à extrema-esquerda.

Voltaria a dizer exatamente o mesmo ou mudaria alguma coisa na sua comunicação (pelo menos para não ser treslido)?

Voltaria a dizer o mesmo.

O que é que lhe custou mais ouvir por estes dias?

As constantes mentidas e deturpações, ditas sem um pingo de vergonha por políticos e jornalistas que das duas uma: ou não ouviram o que eu disse, mas falam da mesma, o que é vergonhoso, ou ainda pior, ouviram e preferiram deturpar para benefícios eleitorais.

O eurodeputado do PS Pedro Marques escreveu no Twitter que o senhor  tinha sido “ovacionado enquanto defendia as virtudes do regime fascista em Portugal”. Perante a sua rápida reação, o ‘Polígrafo’ certificou que essa acusação era, é, falsa. Recebeu algum pedido de desculpas?

Não recebi nenhum pedido de desculpas de ninguém. Também ninguém veio a público admitir ter errado do ponto de vista factual sobre a história económica de Portugal. Mas erraram sistematicamente. Por exemplo, a líder parlamentar do PS, Ana Catarina Mendes, no programa da TVI 24 “Circulatura do Quadrado” de 26 de Maio acusava-me de participar no “branqueamento do que foi o Estado Novo em Portugal” e, entre as deturpações do que eu disse, considerava que eu tinha tido “a ousadia de dizer que, no final do Estado Novo, o analfabetismo em Portugal era residual”. E acrescentava: “É falso e ligeiro. Basta consultar dados e perceber como nós estávamos estruturalmente atrasados, como não estávamos, nem de perto nem de longe, como o mesmo orador tentou dizer, a convergir com a Europa. Mas qual Europa? Não estávamos a convergir com rigorosamente nada em termos europeus”. Contou com a aprovação de Pacheco Pereira – numa uma demonstração da gigante ignorância histórica de ambos. Em 1940, Portugal tinha cerca de um terço do PIB per capita médio dos países mais ricos da Europa. Nas vésperas do 25 de abril, já era 60%. Basta consultar este artigo científico de Pedro Lains (que era de esquerda).

A melhoria do rendimento médio das pessoas teve, obviamente, repercussões noutros indicadores sobre as condições de vida das populações ainda muito anteriores à Democracia, por exemplo, a enorme queda verificada na taxa de mortalidade infantil facilmente verificável na PORDATA e os progressos conseguidos no combate ao analfabetismo com o Estado Novo. A este respeito, fiz notar que, entre as crianças (repito, entre as crianças), o problema do analfabetismo secular do analfabetismo em Portugal, que tinha sido 75% em 1900, estava resolvido em finais do Estado Novo, estando portanto resolvido para as gerações futuras – em contraste com a Primeira República, em que não tinha havido progresso. Essa evidência científica está clarificada há muito tempo, bastando que se consulte os trabalhos de investigação de alguém tão politicamente insuspeito como António Candeias (alguém que se assumiu toda a vida como uma pessoa de esquerda), quando mostra que, em 1930, a taxa de analfabetismo no grupo etário dos 10-14 anos era de 58%, enquanto em 1960 era apenas 3% e em 1970 era só de 1%. Então, o “analfabetismo entre as crianças”, que foi aquilo de que eu tinha falado, era residual ou não?

Num artigo, mais recente, de Pacheco Pereira, no ‘Público’, ele diz…

(“Uma das técnicas é dizer que o regime da ditadura –​ a que não chamam assim, como é obvio –​ foi “indefensável”. De passagem, como se come um peão no xadrez, brevemente e sem consequências na economia do discurso, para depois não dizerem uma linha, uma palavra, um “mas”, mesmo de circunstância, sem mencionar a ditadura, as prisões e a repressão, a censura, e os milhares de mortos da guerra colonial durante a módica quantia de 48 anos. Terra de leite e MEL, com um pequeno problema, que é “indefensável no plano político”, mas nem sequer se diz porquê, porque estragava o resto, o que é “defensável”. O que está implícito é que em muitas outras matérias é “defensável”. Foi isto que fez um académico numa intervenção estritamente política e com muito pouco de académico, Nuno Palma, no MEL. No sentido weberiano percebe-se bem de mais o mecanismo da empatia com aquilo que é eufemisticamente classificado apenas como o Estado Novo. E desafio o Polígrafo a desmentir-me”).

…Como comenta?

No seu artigo, José Pacheco Pereira dá vários exemplos demonstrativos da forma como a ditadura do Estado Novo usava “a falsidade, a calúnia e a difamação como instrumento de ataque aos opositores”. Ora, são exatamente esses os métodos que têm sido usados nesta campanha contra mim e onde o próprio José Pacheco Pereira alinha nesse artigo do Público, que nada mais é do que um “whataboutism” épico. É falso que eu não tenha mencionado a Polícia Política na minha intervenção, mas a minha intervenção não era sobre esse tema, que é bem conhecido. Eu não alinho com a imposição de que temos de estar sempre a pedir desculpa pelo passado pelo qual não temos responsabilidade. Eu não tive nada a ver com esse passado. Não tenho dúvidas que se tivesse vivido durante o Estado Novo, teria sido opositor.

O polígrafo não o pode desmentir, nem confirmar, porque a afirmação que ele faz sobre mim porque ela é pura especulação não testável, é uma sem frase sem qualquer sentido: como quer ele que o Polígrafo teste se eu tenho empatia com o regime apesar de tudo que tenho dito ir em sentido contrário?

O que é essencial percebermos, é que o licenciado Pacheco Pereira é um académico falhado. A suposta “história” que ele ou indivíduos como Fernando Rosas fazem é apenas política disfarçada de história. É tudo normativo, por isso não são capazes de conceber que outros queiram olhar para a História de forma objetiva e sem constantes julgamentos de valor.

Custa-lhe dizer, como insinua Pacheco Pereira, que o Estado Novo foi uma ditadura?

Claro que não, e disse-o mais que uma vez da forma o mais clara possível, como pode ser facilmente visto no Youtube.

Rejeita qualquer simpatia com o Estado Novo?

Rejeito.

É verdade que houve queixas para a Universidade de Manchester, onde trabalha?

É verdade. E também à BBC e ao Guardian. Há várias públicas no Twitter, apesar de apenas uma email ter sido tornado público pelo próprio autor. Eu próprio não sei qual o número total de queixas nem vi outras cartas, pois isso não me foi dito pela Universidade, talvez até para proteger a identidade dos queixosos, o que acho bem como princípio. Em Inglaterra leva-se muito a sério estas coisas.

Teve de dar alguma explicação interna (na Universidade de Manchester)? 

Sim, tive, e ainda deu algum trabalho, tais eram as deturpações. Por exemplo, algumas das queixas diziam que o MEL era um congresso de extrema-direita, e que eu tinha lá ido defender ideias fascistas.

Também houve queixas para o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa?

Não tive conhecimento, mas no ICS eu tenho uma posição temporária como investigador, sem exclusividade: não sou do Quadro.

Teve reações de amigos-professores de outras nacionalidades com quem trabalha de perto?

Sim, muitas. Em todos os casos manifestaram a sua solidariedade. Mas isto são colegas que também são cientistas. Sabem que eu não faria afirmações históricas que não fossem factuais. Vários professores de universidades Europeias e Americanas manifestaram-se até publicamente neste sentido no Twitter.

Esta polémica prejudica-o em termos académicos ou é irrelevante?

É irrelevante. É uma enorme perda de tempo. Denuncio a situação atual por amor ao meu país. Não tenho dúvidas que o tempo vai dar-me razão.

O que é que estas polémica nos diz sobre a sociedade portuguesa – ou, pelo menos, a qualidade da discussão política no País?

O nível da discussão pública é francamente infantil. Repito que as afirmações que fiz sobre o progresso económico durante o Estado Novo são factuais. Está-se a criar um clima (claramente anti-democrático e anti-liberal) de medo e intimidação relativamente à discussão destes assuntos. Desde que as discussões e a apresentação de resultados científicos se mantenham dentro de uma “bolha” académica, sem repercussões na sociedade, tudo bem, não há problema. Mas se esses resultados são discutidos no espaço público e colocam mitos e tabus, passa a ser uma heresia que, tal como na Inquisição, merece ser denunciado, para atirar o autor para a “fogueira”. É a este tipo de políticos que vamos deixar o policiamento e censura da internet através do artigo 6º da Carta Portuguesa de Direitos Humanos na Era Digital?

Depois disto, nunca mais aceitará participar numa conferência em Portugal?

Aceito com certeza, enquanto ainda for possível. Note-se que o mundo em que vivemos hoje não é, pelo menos por enquanto, o de Orwell: A PIDE ou a Stasi censuravam – não se podia dizer isto e aquilo, e quem dissesse podia ir preso. Orwell, olhando para a União Soviética, receava isso mesmo: que nos negassem o acesso à informação. Nalguns aspetos, Orwell acerta em cheio ainda hoje, como quando afirmou que quem controla o passado controla o futuro, e quem controla o presente, controla o passado. É a isto que estamos a assistir: uma tentativa de controlar e manipular a nossa História para benefícios eleitorais.

Mas o mundo de hoje é na verdade genericamente mais próximo do de Huxley, no “Brave New World”, do que do de 1984. O que temos é um excesso de informação, muitas vezes até contraditória, e cortinas de fumo tais que a política-espetáculo reina. Neste aspeto não há grande diferença entre Donald Trump e políticos como Pedro Marques, Ana Catarina Mendes, Miguel Costa Matos, ou Pacheco Pereira.

Outras perguntas para contextualizar as suas respostas (eu conheço o seu currículo mas gostaria de respostas suas):

  • Há quantos anos leciona em Manchester e em Lisboa?

Já vou para o meu quinto ano em Manchester. Antes disso, fui professor na Universidade de Groningen, na Holanda. Nunca dei aulas em Portugal depois do doutoramento. Não dou quaisquer aulas em Lisboa.

  • Como reparte o seu tempo entre os dois países?

Estou parte do ano em Manchester, durante o período letivo. O resto do ano, divido entre Portugal e outras partes do Mundo, que visito frequentemente para dar conferências e seminários de investigação a convite de universidades várias.

  • A que matérias económicas dedica mais atenção?

História Económica, economia do desenvolvimento, economia política, e macroeconomia.

  • Como se define do ponto de vista do pensamento político?

Sou um liberal, no sentido Europeu. Detesto todas as ditaduras. Um liberal não é alguém contra o Estado, mas sim alguém que quer um Estado eficiente, e concentrado na provisão de bens públicos como escolas, hospitais, e justiça. E pelo contrário, um Estado fora de sectores em que não há externalidades claras, como é o caso da aviação (TAP). Tem que haver uma luta sem tréguas contra os paraísos fiscais para que os Estados possam ter dinheiro para gastar.

A esquerda e a direita são conceitos demasiados simplistas, gastos. Duas dimensões apenas não chegam para analisarmos a realidade. Tentam meter o Rossio na rua da Betesga. Eu não sou um conservador social, por isso em certos aspetos sociais eu até tenho posições próximas do que tradicionalmente se considera causas da esquerda.

  • Costuma votar nas eleições nacionais?

Quando é possível, sim. Por vezes não é possível: por exemplo, nas últimas Presidenciais não consegui votar porque para o fazer teria de o fazer no consulado de Manchester, mas eu estava em Portugal devido à pandemia.  Nessa altura lamentei isto mesmo publicamente no Twitter, ou seja, a ausência de alternativas concretas para votar num sítio diferente da residência fiscal, e anunciei o meu apoio ao candidato da Iniciativa Liberal.

Mais uma vez agradeço a sua disponibilidade para responder a estas perguntas.

FIM DA ENTREVISTA

Já agora, deixo aqui um exemplo das muitas queixas que se podem encontrar no Twitter, para além do email conhecido do Francisco Santos Silva do ISCTE:

Cortinas de Fumo: a indústria de falsificações e deturpações

Nota: Este texto corresponde a uma versão alargada da minha resposta a Pacheco Pereira e outros, que saiu no Público.

A intervenção que fiz na Convenção do MEL tem sido objeto de uma maré de deturpações, não apenas nas redes sociais, mas também em órgãos importantes de comunicação social, que não posso deixar passar em claro. O tema central dessa intervenção consistiu em chamar a atenção para a situação dramática do ponto de vista económico em que Portugal se encontra neste momento, em termos europeus, e para as raízes históricas que poderão explicar essa situação.

Iniciei a minha intervenção relembrando que foi, precisamente, há 150 anos que Antero de Quental fez o seu famoso discurso nas “Conferências do Casino”, sobre “As Causas da Decadência”. Antero fazia parte de uma geração de intelectuais, que ficou conhecida como a “Geração de 70”, onde se incluíam individualidades como Eça de Queirós ou Oliveira Martins, que se sentia oprimida pela sua própria incapacidade de mudar o rumo do país e pelo atraso que sentiam relativamente à Europa desenvolvida da época. É um texto notável de que já falei antes aqui e que, apesar de Eduardo Lourenço o ter classificado como “a referência mítica da cultura portuguesa moderna. Ou com mais precisão, o seu próprio acto fundador”, passou este aniversário sem ter merecido a atenção devida na esmagadora maioria da imprensa, tendo sido raras as referência que a ele foram feitas (uma excepção, que aliás menciona os resultados do meu trabalho, está aqui). Seguindo o exemplo de Antero, também agora é necessário ter a coragem de olhar para o passado e não haver medo de polémica na destruição de mitos e preconceitos ideológicos que não permitem ver a realidade e as raízes dos problemas atuais.

Portugal está a divergir da Europa Ocidental há mais de 20 anos. É um tema que deveria abrir todos os noticiários, todos os dias, e que deveria ser objeto de uma análise e discussão permanente, porque põe em causa o futuro do país. Isto está a passar-se ao mesmo tempo que se acumula um gigantesco endividamento externo que compromete as gerações futuras, e apesar da existência, desde há décadas, de fundos europeus que não levaram à convergência. Entretanto, a qualidade das instituições políticas tem vindo a piorar, como a publicação de vários relatórios recentes mostram.

Foi neste contexto que sublinhei a necessidade de analisar objetivamente, sem preconceitos ideológicos, o que aconteceu durante o período do Estado Novo. É óbvio que era uma ditadura execrável, onde não havia liberdade de expressão, mas sim perseguições, polícia política e censura. Isto ficou explícito na minha intervenção, mas não faria sentido centrar a apresentação nisso: são factos bem conhecidos. Falei antes do facto que foi com o Estado Novo que a divergência económica com a Europa diminuiu significativamente: factos históricos, fundamentados em investigações sérias e estudos científicos, publicados ao longo de vários anos em livros e revistas conceituadas, a nível nacional e internacional – muitos deles por autores de esquerda, como José de Silva Lopes ou Pedro Lains. Em 1940, Portugal tinha cerca de um terço do PIB per capita médio dos países mais ricos da Europa. Nas vésperas do 25 de Abril, já era 60%. É de notar que em 1985, já só era menos de 55%, antes de voltar a convergir durante os 15 anos seguintes para mais de 65% no ano 2000. Ou seja, apenas houve cerca de 15 anos de convergência durante a democracia: 1985-2000. Desde então, regressou a divergência.

Tudo isto significa que o período de mais rápida e mais sustentada convergência com a Europa da nossa História foi anterior à Democracia. Claro que em 1974 Portugal ainda era um país relativamente pobre. Mas antes tinha sido muito mais. E não faz sentido dizer que o Estado Novo apenas beneficiou apenas de uma conjuntura externa favorável porque houve períodos vários da nossa História em que a conjuntura externa era favorável e o país esteve em contraciclo em termos de crescimento (havendo até evidência histórica de efeitos causais). A melhoria do rendimento médio das pessoas teve, obviamente, repercussões noutros indicadores sobre as condições de vida das populações, por exemplo, a enorme queda verificada na taxa de mortalidade infantil e os progressos conseguidos no combate ao analfabetismo. A este respeito, fiz notar que, entre as crianças (repito, entre as crianças), o problema secular do analfabetismo em Portugal, que tinha sido 75% em 1900, estava resolvido em finais do Estado Novo – em contraste com a Primeira República, em que não tinha havido progresso.

É evidente que nada disto justifica, politicamente, o regime do Estado Novo, uma vez que a liberdade e a democracia são fins em si mesmos, como eu afirmei o mais claramente possível no MEL. O que eu fiz foi descrever a realidade (factos), nunca defendi o regime a nível político (o que seria normativo). Nada deve impedir que se discuta os progressos materiais obtidos durante esse período e as suas causas. Todos os regimes têm tendência a apresentar uma narrativa que é atirar as culpas para o regime anterior. O Estado Novo tinha essa mesma narrativa, ao dizer que a culpa do atraso era da Primeira República, justificando o 28 de Maio com o caos e o despesismo. Os republicanos tinham culpado a Monarquia Liberal (que deveria ter, por exemplo, resistido ao Ultimado Ingês, algo claramente utópico) e os monárquicos liberais culpavam a Monarquia Absoluta. Cada regime culpa sempre o anterior. Faz parte de uma estratégia para se manterem no poder, espalhando mentiras e construindo mitos históricos, com o objetivo de se perpetuarem no poder, à custa da população como um todo.

E é esta a lógica em que estamos agora. Os partidos dominantes do atual regime, especialmente o PS e os partidos de extrema-esquerda, têm necessidade de culpar o regime anterior para se legitimarem e para justificarem os seus fracassos e falhanços atuais, que são gravíssimos. Mas o mito não é mais que isso: um mito. O atraso do país era muito anterior ao Estado Novo, que até correspondeu a um período de rápida convergência no pós-guerra. Os problemas do país de hoje são principalmente responsabilidade dos políticos e instituições de hoje. São, antes mais do mesmo governo (e partido que com ele se confunde) que nomeia por exemplo este seu político para comissário executivo das Comemorações de Abril:

Trata-se de um indivíduo sem CV académico relevante, que defendeu José Sócrates até recentemente (era tudo uma cabala) e que agora graças ao 50º aniversário do 25 de Abril ganha direito a um salário superior a 4500 euros por mês, motorista, secretário pessoal, 3 técnicos especialistas, 3 adjuntos, 4 técnicos superiores, mais uma equipa de apoio técnico e administrativo – regalias para um cargo de mais de 5 anos e meio para organizar a comemoração com um evento que vai durar apenas um dia e onde com toda a certeza se vai simplesmente repetir a narrativa oficial. A mesma narrativa, aliás, que já se dá a entender na Resolução do Conselho de Ministros em que se determina a realização das comemorações, onde se descreve o 25 de Abril como uma “epopeia colectiva não traumática” (o que é claramente falso, basta pensar no 11 de Março e no 25 de Novembro de 1975), e também descreve Portugal como tendo “uma estabilidade e fidelidade aos princípios democrático-liberais com poucos paralelos nos países da terceira vaga democrática”. Claramente, o Partido Socialista a falar de si próprio, contra a clara evidência de vários relatórios internacionais que mostram que Portugal já não é uma democracia liberal nem um país totalmente democrático. Eu quero ser muito claro. Nada do que eu estou aqui a escrever é de forma genérica, “contra a esquerda”. Sendo um liberal, em certos aspectos de política social eu até sou “de esquerda” (não sou um conservador social no que toca aos costumes). Mas é necessário denunciar o que o Partido Socialista se tornou, até porque o seu comportamento é bastante descarado, e por isso, transparente. Basta contrastar esta nomeação com a de António Costa Pinto do ICS para os 30 anos do 25 de Abril: um homem de cento-esquerda, nomeado por um governo PSD, porque era de facto um especialista no tema, com uma vasta obra publicada.

É absolutamente inadmissível e lamentável – mas expectável – a campanha vergonhosa de deturpações e falsidades de que a minha intervenção tem sido objeto. Incluindo insinuações, como as que surgem no artigo de José Pacheco Pereira (JPP) publicado no jornal Público de 5 de Junho passado. No seu artigo, JPP dá vários exemplos demonstrativos da forma como a ditadura do Estado Novo usava “a falsidade, a calúnia e a difamação como instrumento de ataque aos opositores”. Ora, são exatamente esses os métodos que têm sido usados nesta campanha contra mim e onde o próprio JPP alinha. A “indústria de falsificações” de que fala JPP a propósito do Estado Novo está, neste momento, a ser replicada por quem se afirma democrata e deveria ter a responsabilidade de estar na primeira fila a defender a Democracia.

Desde o dia em que fiz a minha intervenção não têm parado as manipulações e mentiras sobre o que eu disse. Nesse mesmo dia, o antigo ministro e eurodeputado do PS Pedro Marques acusava-me no Twitter de ter defendido “as virtudes do regime fascista em Portugal”. Pedi ao Polígrafo que verificasse a veracidade dessas afirmações. A conclusão foi muito clara no sentido de que essas acusações eram completamente falsas:

Mesmo assim, o coro de deturpações e falsidades manteve-se. Já mais tarde, a líder parlamentar do PS, Ana Catarina Mendes, no programa da TVI 24 “Circulatura do Quadrado” de 26 de Maio acusava-me de participar no “branqueamento do que foi o Estado Novo em Portugal” e, entre as deturpações do que eu disse, considerava que eu tinha tido “a ousadia de dizer que, no final do Estado Novo, o analfabetismo em Portugal era residual”. E acrescentava: “É falso e ligeiro. Basta consultar dados e perceber como nós estávamos estruturalmente atrasados, como não estávamos, nem de perto nem de longe, como o mesmo orador tentou dizer, a convergir com a Europa. Mas qual Europa? Não estávamos a convergir com rigorosamente nada em termos europeus”. Contou com a aprovação de JPP – numa demonstração pública da gigante ignorância histórica de ambos.

Isto porque, como mostrei atrás, verificou-se efetivamente uma convergência com os países mais ricos da Europa, em termos económicos, mesmo que essa evidência científica possa não encaixar-se nos preconceitos ideológicos de muita gente. Relativamente ao analfabetismo, nunca me referi ao analfabetismo da população portuguesa; falei claramente sobre o analfabetismo entre as crianças, como pode ser facilmente verificado. Essa evidência científica está clarificada há muito tempo, bastando que se consulte os trabalhos de investigação de alguém tão politicamente insuspeito como António Candeias (que se assumiu toda a vida como uma pessoa de esquerda), quando mostra que, em 1930, a taxa de analfabetismo no grupo etário dos 10-14 anos era de 58%, enquanto em 1960 era apenas 3% e em 1970 era só de 1%. Então, o “analfabetismo entre as crianças”, que foi aquilo de que eu tinha falado, tornou-se residual com o Estado Novo, ou não? E não vale a pena dizerem que era para doutrinar política: com certeza que sim, mas também a Primeira República tinha tido esse objectivo (que aliás continua a existir hoje), e isso não tinha sido de todo suficiente para resolver o problema.

As mentiras, insinuações e deturpações espalharam-se pelas redes sociais, por exemplo pela jornalista do DN Fernanda Câncio ou pelo o jornalista do Expresso Pedro Cordeiro. Também se juntou à festa quem está interessado em manter vivas a falsidades para agitar os seus seguidores, como o deputado e secretário-geral da Juventude Socialista, Miguel Costa Matos, que tem continuado a afirmar repetidamente que eu sou “simpatizante da ditadura”, por exemplo aqui:

Ou ainda aqui, quando partilha uma tabela que claramente não sabe intrepretar:

Tudo previsível. É lamentável que Pacheco Pereira tenha uma atitude colaboracionista perante este comportamento ignóbil. Isto esclarece quaisquer dúvidas sobre a isenção e imparcialidade dos seus trabalhos como “historiador”. Nada que surpreenda quem tenha visitado a Fortaleza de Peniche – Museu Nacional Resistência e Liberdade, em que Pacheco Pereira assina, com Fernando Rosas e outros, uma exposição em que os presos do PCP são descritos como lutadores pela Democracia. Ou que, na sua coluna de opinião do Público que usou para me insultar, no meio de todo aquele “whataboutism” épico, se esqueça de mencionar o 25 de Novembro de 1975 e porque é que foi essencial para a Democracia. (Algo que, tal como o PREC, também é omitido do Programa de História do décimo-segundo ano.) Tudo isto mostra o enviesamento, aliás antidemocrático, dos políticos que gostam de se mascarar de historiadores.

Não deixa de ser curioso que militantes e apoiantes do PS de hoje, seja por pura ignorância histórica ou por precisarem do apoio do PCP para governar, sejam levados a fazer figuras tristes destas:

Deu-se aliás em Portugal uma situação completamente anómala quando em 2019 o Parlamento Europeu aprovou uma resolução que colocou o nazismo e comunismo em pé de igualdade em termos de responsabilidades morais, por terem sido “a causa da perda de vidas humanas e liberdade em uma escala até agora nunca vista na história da humanidade”. Em Portugal, todos os partidos à esquerda do PSD, incluíndo o PS, votaram contra na Assembleia da República. (Isto apesar do PS no Parlamento Europeu ter votado a favor, onde não tinha geringonça com que se preocupar). Tudo isto é uma figura mesmo muito triste até porque o fundador do PS, Mário Soares, que tinha sido comunista, prisioneiro político do Estado Novo, depois do 25 de Abril tinha vivido o PREC, e tinha ainda sido crucial para o 25 de Novembro de 75, não tinha quaisquer dúvidas sobre a natureza anti-democrática do PCP:

É a políticos que deturpam as palavras de terceiros e falsificam a nossa História, como Pedro Marques, Ana Catarina Mendes, Pacheco Pereira, Pedro Adão e Silva, ou Miguel Costa Matos que vamos deixar o policiamento e censura da internet através do artigo 6º da Carta Portuguesa de Direitos Humanos na Era Digital? Qual a razão para estar a existir uma violenta reação ao que eu disse, quando muitos dos resultados que apresentei já eram conhecidos e aceites na comunidade científica desde há muitos anos? Porque se está a criar um clima (claramente anti-científico, anti-democrático e anti-liberal) de medo e intimidação relativamente à discussão destes assuntos?

O objetivo é simples: provocar auto-censura que leve ao silenciamento destes temas. Trata-se da necessidade dos partidos que estão a falhar criarem cortinas de fumo para desviar a atenção da discussão sobre os problemas económicos atuais, mantendo vivos os mitos sobre o passado com o objetivo de levar as pessoas a acreditar na superioridade moral de quem está no poder – e daí tirar benefícios eleitorais. Especialmente quando o governo atual governa graças ao apoio de um partido, o PCP, que sempre se especializou no negacionismo histórico, como faz por exemplo relativamente ao massacre da praça de Tiananmen, sobre o qual ainda em 2019 se foi o único partido da AR contra votos de pesar pelas vítimas, 30 anos depois.

A propósito da União Soviética, George Orwell chamava a atenção de que quem controlasse o passado controlaria o futuro, e quem controlasse o presente controlava o passado (e por essa via também o futuro). Estamos a assistir agora a isto em Portugal. Desde que as discussões e a apresentação de resultados científicos se mantenham dentro de uma “bolha” académica, sem repercussões na sociedade, tudo bem, não há problema. Mas se esses resultados são discutidos no espaço público e colocam mitos e tabus – ó da guarda, passa a ser uma heresia que, tal como durante a Inquisição ou a PIDE, merece ser denunciado. Mas apesar de tudo, o mundo de hoje é mais “Brave New World” de Huxley do que 1984 de Orwell: uma gritaria e excesso de informação (muita dela contraditória ou simplemente falsa, e paga pelo contribuinte por ser escrita por assessores a soldo). Gera apenas ignorância, indiferença e hedonismo. Veja-se aqui o Pacheco Pereira a defender em 2005 mais liberalismo económico (com mais contexto aqui). Ou veja-se aqui ele em 2002 a defender que Paulo Portas é comparável a Jean-Marie le Pen, um negacionista do Holocausto:

Tudo isto é o newspeak de Orwell, mas ao serviço do prazer imediato do Maravilhoso Mundo Novo de Huxley: a política-espetáculo que funciona de soundbites à procura dos likes, das gordas dos jornais, e dos convites para falar na TV. Todos estes insultos e disparates gratuitos simplesmente acabam por gerar no povo a aptia e indiferença relativamente à oposição. É a política-espetáculo de Donald Trump, mas ao serviço do status-quo da esquerda.

Termino, como iniciei, citando o que Antero de Quental dizia, logo no início da sua intervenção nas Conferências do Casino: “não pretendemos impor as nossas opiniões, mas simplesmente expô-las: não pedimos a adesão das pessoas; pedimos a discussão: essa discussão, longe de nos assustar, é o que mais desejamos; porque, ainda que dela resultasse a condenação das nossas ideias, contanto que essa condenação fosse justa e inteligente, ficaríamos contentes, tendo contribuído, posto que indiretamente, para a publicação de algumas verdades.”

Também as Conferências do Casino foram sujeitas à censura e escárnio de políticos da época, e acabaram mesmo ser proibidas pelas autoridades de então com o argumento que atacavam “as instituições do Estado“. Esperemos que a Democracia de hoje seja capaz de um debate mais poderado, mais informado, e mais livre sobre o nosso passado. E o que ainda é mais importante: sobre o nosso presente, sem cortinas de fumo.

Fonte das imagens.

Extras: Nesta secção partido artigos que têm saído relacionados com esta matéria. Vou continuar a atualizá-la (enquanto durar a minha paciência…)

Ver este artigo de João Miguel Tavares, assim como o anterior; e ainda este de José Manuel Fernandes, ou este de Rui Ramos. Dei também uma entrevista a Camilo Lourenço e outra ao Jornal Económico. Um bom momento de humor têm sido as patéticas tentativa de resposta do eurodeputado Pedro Marques. Leiam e decidam por vocês. Têm quase tanta graça como esta crónica (que é obviamente uma sátira a indivíduos como o Pedro Marques).

Já resposta de Pacheco Pereira no Público de 12 de Junho é mais sofisticada. Manda-me estudar, apesar de ter apenas uma licenciatura (em Filosofia), não passando de um tudólugo do comentário, cuja prepotência com que fala de coisas de que nada sabe é uma afronta aos historiadores sérios. Como já não tem resposta factual – a negação de que houve progresso económico e social com o Estado Novo em Portugal foi paulatinamente deixada de parte – mudou de estratégia para uma aposta total no whataboutism: “também foi assim na Alemanha Nazi” (o que é aliás em evidentemente falso a todos os níveis, não só políticos mas económicos, já que a guerra não desenvolveu a Alemanha, destruíu-a, sendo um cherry-picking ridículo querer parar em 1942). Para além de que é óbvio que quando os Nazis tomaram o poder em 1933, a Alemanha já era um país rico. Não enriqueceu nem convergiu com eles. Qualquer comparação com o Estado Novo de Portugal é ridícula – não houve qualquer tipo de comparação a nível da repressão – e é apenas feita para o estigmatizar o mais possível.

Acha Pacheco Pereira que eu faço parte de uma “direita radical”, que afirma ser a mesma que esteve no poder antes do 25 de Abril (!), e é por isso que estou a “lavar” a ditadura. Usa o termo inútil neoliberal que não quer dizer absolutamente nada (a sua utilização é um indicador certo de uma mente medíocre), e ainda me acusa de ser indiferente aos pobres e aos desfavorecidos. Até sabe que eu seria um apoiante do Integralismo Lusitano se tivesse vivido na época (a bola de cristar explica-se facilmente: os vira-casacas pensam que os outros também o seriam). É tudo um sem fim de disparates.

O que Pacheco Pereira no fundo quer é defender a ideia de que a sua luta contra o Estado Novo, quando ele era de extrema-esquerda (já não é?), era o mais santa (e democrática) possível, para se glorificar a si próprio, contra toda a evidência histórica. E ainda diz que o que eu afirmei sobre não podermos deixar a censura da internet a políticos como ele não faz sendido, porque ele foi contra. Pacheco Pereira não passaria numa cadeira de lógica da faculdade, já que o que eu escrevi no artigo do Público foi que era perigoso deixarmos a censua da internet a políticos como ele, não a ele (isto é, aos que, como ele, vivem dos conflitos de interesse, mentem e falsificam a nossa História para seu benefício eleitoral, e por isso mostram não saber ser imparciais como reguladores seja do que for):

O artigo de Pacheco Pereira do Público depois levou outros a espalharem as suas mentiras, por exemplo o médico e professor universitário Pedro Morgado que afirmou que o João Miguel Tavares e eu somos alt-right / de extrema-direita. Não sei se o fez propositadamente ou induzido em erro por Pacheco Pereira (ainda que a verdade estivesse facilmente disponível), e mesmo depois da verdade lhe ser explicada por várias pessoas incluíndo eu próprio, não se retratou:

Poderia fazê-lo, mas não me vou dar ao trabalho de estar a enviar outro artigo de resposta para ser publicado no Público. O meu trabalho não é isto, e a minha paciência para a demagogia esgotou-se. Já disse o que tinha a dizer no meu artigo do Público da semana passada e aqui neste post. Penso que o João Miguel Tavares e outros vão continuar o debate.

Pedro Lains (1959-2021)

Deixo aqui as declarações que dei ao jornalista Jorge N. Rodrigues do Expresso que me contactou ontem:

Pedro Lains faleceu a 16 de Maio, de um cancro. Licenciou-se em Economia na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa (agora Nova SBE), onde foi aluno de Jaime Reis, que influenciou a sua carreira de forma decisiva, e com quem viria a colaborar. Doutorou-se depois em História no Instituto Universitário Europeu (EUI), em Florença. Foi dos primeiros historiadores económicos portugueses a publicar em algumas das melhores revistas e editoras internacionais da área. Deixou uma obra extensa que se centrou na história económica de Portugal dos séculos XIX e XX. Publicou recentemente uma história da Caixa Geral de Depósitos, e estava a preparar uma coleção de três volumes, com dezenas de co-autores, sobre a História Económica da Península Ibérica desde a Idade Média até ao presente. Será lembrado como alguém que tinha uma vasta cultura e alegria de viver. Tendo sido um liberal a nível de política económica quando era mais jovem, Pedro Lains virou à esquerda no decurso da sua vida. Frequentemente não estávamos em acordo, tanto relativamente à interpretação de diversos períodos históricos como das causas dos problemas da economia portuguesa no presente, mas isso nunca afectou a nossa amizade.

Deixou algumas notas autobiográficas recentes:
https://pedrolains.typepad.com/pedrolains/2020/07/mem%C3%B3rias-acad%C3%A9micas.html

Addendum: Fica aqui o link para o artigo que depois foi publicado no Expresso.

Antero de Quental, “As Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos últimos três séculos”

Discurso na noite de 27 de Maio de 1871, na Sala do Casino Lisbonense

Antero de Quental

Este notável discurso faz este mês 150 anos. Há uma edição recente da Tinta da China.

Agora que Portugal está estagnado há 21 anos, e a divergir da Europa Ocidental, é uma boa altura para olharmos para outro momento da nossa História em que Quental – que se veio a suicidar – refletiu sobre o malfadado destino do país no longo prazo. Foi esse aliás um tema recorrente para a Geração de 70 a que pertenceu, um grupo de intelectuais frustrados com a sua impotência perante o que sabiam ser o declínio em que Portugal se encontrava face a outros países Europeus; grupo que também incluía Eça de Queirós.

Geração de 70 / os vencidos da vida

O ensaio de Quental que faz agora 150 anos não era isento de conteúdo político mas é notável pelo esforço que faz, bastante moderno, de uma análise cronológica causal. De facto, o que sabemos hoje não confirma a tese central que Quenal avança, nem relativamente ao timing do declínio da economia portuguesa no longo prazo, nem as suas causas. Vou explicar porquê.

Quental pensava que o declínio tinha começado ainda no século XVI e se devia ao facto de Portugal ter permanecido um país Católico, sujeito à Contra-Reforma. Isso também teria tido reflexos na qualidade das instituições, por exemplo, teria levado ao Absolutismo e ao desaparecimento das Cortes (parlamentos).

No entanto, hoje sabemos que o declínio tanto político e institucional como económico é posterior: são fenómenos do século XVIII. A explicação da “maldição dos recursos” explica melhor o timing da divergência, primeiro de Espanha devido à prata vinda das Américas e um século e meio mais tarde, de Portugal, devido às consequências económicas e políticas do ouro do Brasil.

E esta última explicação tem uma ligação mais próxima, também, aos problemas que estamos a ter hoje.

Apesar do notável esforço no contexto da época, Quental comete, sabemos hoje, vários erros. Por exemplo, afirma que a população de Portugal teria caído de três milhões no século XVI para um milhão em 1640 (p.83), o que está errado. Na verdade, a população cresceu: de cerca de 1 milhão em 1500 para 2 milhões em meados do século XVII. Também afirma que existiu a Escola de Sagres associada ao Infante D. Henrique (p. 43) o que sabemos hoje ter sido uma invenção do século XVII. O ensaio tem variados erros factuais deste género, sempre relacionados com tentativas de justificar o timing e causas da decadência em que Quental acreditava. E a insistência de Quental na religião Católica como causa não faz muito sentido à luz que o segundo país a ter uma revolução Industrial, a seguir à Inglaterra, foi a Bélgica, ainda em inícios do século XIX.

No entanto, Quental tinha razão relativamente ao facto de que a Monarquia Liberal não tinha conseguido desenvolver o país: o atraso relativo agravou-se durante o século XIX (mas ao contrário do Quental pensava, uma República com um programa anticlerical também não iria resolver o problema). No entanto, não deixa de ser interessante relembrar que Quental avisava no início do seu discurso depois publicado:

não pretendemos impor as nossas opiniões, mas simplesmente expô-las: não pedimos a adesão das pessoas que nos escutam; pedimos só a discussão

Aviso premonitório porque a iniciativa onde esta intervenção se enquadrava (as “Conferências do Casino”, promovidas pela “Geração de 70”) acabaram mesmo por ser proibidas pelas autoridades de então com o argumento que “expõem e procuram sustentar doutrinas e proposições que atacam a religião e as instituições do Estado“.

Portugal teria de esperar pelo século XX para começar a convergir, num processo que atingiu o seu auge por volta do ano 2000 mas nunca se chegou a completar – e está agora outra vez em franco retrocesso.

Parlamentos (Cortes no caso de Castela e Portugal). Fonte: Henriques e Palma (2019)
PIB per capita em preços constantes de 1990. Fontes: Broadberry et al (2015); Prados et al. (2020); Palma e Reis (2019).
A convergência (1950-2000) seguida de divergência desde 2000