A desigualdade em Portugal nos últimos 250 anos

Foi no já distante ano de 2006 que, pela primeira vez, me cruzei com o nome de Thomas Piketty, que falou esta semana na Gulbenkian, num evento que, como seria de esperar, esteve bastante concorrido. E ainda bem, embora eu ache o histerismo à volta de Piketty exagerado e não concorde com muito do que ele diz; mas respeito o trabalho dele que tem o mérito de ser bastante empírico, o que nem sempre acontece em economia.

No recente livro O Capital no Século XXI de Piketty, em que populariza muitos dos seus trabalhos anteriores, Portugal está presente, mas só as últimas décadas. (Piketty também se centra especialmente na desigualdade da riqueza, comparando os mais ricos de todos com todos os outros; ele enfatiza menos a desigualdade de rendimento e a que pode ser medida com medidas convencionais). A evolução da desigualdade de longo prazo em Portugal está ausente. Mas hoje já sabemos bastante sobre este assunto.

Sabemos que, em finais do século XVIII, a desigualdade em Portugal era muito alta. (Apesar de, em comparação com outros países, Portugal ser nessa altura menos desigual do que se poderia pensar.) Sobre o século XIX ainda sabemos pouco, pelo menos em termos quantitativos.

Já em relação ao século XX sabemos muito mais. Vou aqui falar essencialmente da evolução no longo prazo. Sobre este tema foi defendida o ano passado, na Universidade de Barcelona, esta tese de doutoramento, sendo que o autor, um jovem catalão chamado Jordi Guilera, já tinha vindo a publicar outros artigos sobre esta temática, alguns em co-autoria como acontece com este. Aqui fica um post antigo do Pedro Lains sobre esse trabalho.

Argumenta Guilera, na sua tese, que em Portugal a desigualdade era baixa quando ele começa a análise, por volta de 1920, tendo subido continuamente até ser bastante alta por volta de 1960, e depois começou a descer, tendo descido até aos finais dos anos 70, voltando depois outra vez a aumentar. (O gráfico é de Jordi Guilera a quem desde já agradeço ter-mo enviado.)

inequality portugal

No meu primeiro post, eu não abordei a questão da desigualdade, porque queria centrar as atenções noutros aspectos, mas a verdade é que hoje ela é relativamente alta em Portugal (para o seu nível de desenvolvimento). Através de diversos meios, as elites em Portugal têm tido sucesso em manter e até subir os seus níveis de riqueza.

A desigualdade só pode ser medida de forma mais ou menos direta desde a década de 1970. Por isso, aliás como é frequente em história económica, os investigadores usam antes uma variedade de métodos indiretos para poder “andar para trás”. Existe sempre um grau de subjetividade que tem de ser aceite em troca de termos quantificação, e em geral é um preço que vale a pena pagar.

Mas não deixa de ser verdade que é preciso cruzarmos os resultados com a compreensão narrativa da História. A parte da tese de Guilera que eu acho suspeita é a ideia de que, por volta de 1920, a desigualdade era baixa. Sabemos que quando a “luz se apaga” em finais do século XVIII a desigualdade era alta. (Ou seja, como não há estudos quantitativos sobre o século XIX não sabemos quase nada sobre a desigualdade nessa altura; “a luz apaga-se”).

Quando a luz se “volta a acender”, por volta de 1920, aceitando a análise de Guilera, a desigualdade era baixa. Isto implica que teria de ter baixado imenso durante o século XIX, e/ou nas primeiras duas décadas do XX, o que não me parece credível. A outra hipótese é terem sido os autores do estudo sobre os finais do século XVIII a enganarem-se, e a desigualdade ser aí já baixa; mas isto também não parece provável.

Por isso, penso que deve ser considerada a alternativa, que me parece a mais credível, de a desigualdade ter estado sempre alta durante o século XIX e também no início do XX. Se assim for quando chegamos a meados do século XX, quando sem dúvida podemos dizer com confiança que era alta, isso não teria correspondido a uma subida recente, mas apenas a uma continuação. A ideia de que a subida de desigualdade em Portugal no século XX teria sido associada à industrialização e ao crescimento económico moderno também não acerta bem no timing: segundo Guilera a subida acontece até cerca de 1950, e depois estabiliza até à democracia. Ora é precisamente nessa altura de estabilização entre cerca de 1950 e a democracia – época que corresponde ao arranque do crescimento económico moderno em Portugal – que a desigualdade pára de aumentar. Isto não é bem a hipótese de Kuznets.

Nada disto pretende tirar valor à tese de Guilera, que representa uma contribuição legítima e um grande salto em frente em relação ao que sabemos sobre a evolução da desigualdade no longo prazo em Portugal.

Seja como for, o século XIX é, neste momento, um “buraco negro”. Seria interessante sabermos mais, e ajudaria a decidir qual das duas intrepretações acima que referi está certa. Até porque também há óbvias implicações para a nossa compreensão da História política. Se a conclusão for que a desigualdade de facto aumentou brutalmente entre os anos 20 e 60 do século XX, isto é obviamente um dado importante para se depois poder estudar qual terá sido o papel do Estado nesse processo. Tanto mais que isso significaria um aumento das desigualdades durante a maior parte do Estado Novo, mas uma diminuição dessas desigualdades no fim desse período.

Quem estiver já preparado para conclusões precipitadas deve ter em conta que,  mesmo nos dados do Guilera, a desigualdade já estava a aumentar desde o início dos anos 20 (portanto antes do Estado Novo), e a estabilizar ou mesmo já a baixar um pouco desde o início dos 60 (ver gráfico acima); além disso, apesar de descer bastante em 1975, desde o final dos anos 70 tem estado a aumentar, e muito. Finalmente, é o próprio  Guilera que neste artigo diz que as razões que explicam a evolução de longo prazo da distribuição de rendimento e riqueza dos mais ricos são fundamentalmente económicas, e não políticas.

No meio de todos os mitos e retórica política que rodeiam este assunto, a verdade é que ainda sabemos muito pouco. Mas graças ao Guilera agora sabemos bastante mais.

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O capitão Falcão e o debate que falta

Estreia na próxima 5ª feira, 23 de Abril, Capitão Falcão, que, julgando pelo trailer, promete ser a mais divertida comédia Portuguesa das últimas décadas. Também acho importante que já seja possível fazer um filme destes, ainda que, imagino, haja sempre vozes descontentes, como não podia deixar de ser, e ainda que a mensagem possa não só refletir mas também contribuir para a persistência de certos mitos. Seja como for, em termos gerais, “o país” já não leva isto a mal, e se o filme contribuir para algum debate, então ótimo.

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Seria o Estado Novo o bicho papão que tantas vezes é pintado, indiferente ao bem-estar das pessoas? Será o Portugal moderno que vemos à nossa volta apenas um resultado das conquistas da democracia? (Indicadores simples sugerem que muitas conquistas já vinham de trás, apesar de ser difícil saber, apenas com base nestes indicadores gerais, o que teria acontecido se a democracia tivesse acontecido antes.)

O que quero salientar é que já é altura ― e seria até saudável para o correto diagnóstico dos problemas de hoje do país ― de se falar mais, e serenamente, sobre o que foi o Estado Novo (e não foi sempre igual) e sobre o seu rescaldo refletido no imaginário das pessoas. Há vários mitos que persistem sobre este assunto, que ainda é politicamente sensível. Mas uma continuação do debate que existiu há uns anos quando foi lançada a História de Portugal editada por Rui Ramos seria útil.

No próximo post vou falar sobre a evolução da desigualdade em Portugal nos últimos 250 anos.

Porque estava o país em declínio durante os “Descobrimentos”?

No post anterior sugeri que, para compreendermos porque estava Portugal em declínio económico no século XVI (e provavelmente também estaria durante o XV), seria preciso ter em conta a situação do país em finais da idade média. Na verdade, será conveniente ir ainda um pouco mais para trás, até c. 1300.

António Castro Henriques, um jovem medievalista e historiador económico português fora de série, mostrou recentemente que Portugal, por volta dessa época, era bem mais rico que a Inglaterra (apesar de menos do que a Espanha).

Inglaterra

Portugal

Produto agrário a preços constantes (GK) de 1990, c.1300

12.5

18.8

População (milhões), c.1300 4.25

1.01

Nota: o produto agrário é a parte do PIB correspondente ao sector agrícola

O que é importante reter é que, por volta de 1300, Portugal e Espanha seriam certamente dos países mais ricos da Europa. Porquê?

Old Compass

A ideia chave (originalmente proposta no contexto Espanhol aqui) é que estas eram, nessa altura, economias de fronteira, um pouco como o faroeste americano no século XIX. Ou seja, à medida que a Reconquista avançava, não havia falta de terras, e isto implicava que, para um dado nível tecnológico, em média cada pessoa (do lado Cristão) tinha bastantes terras e alimentos disponíveis. No caso português, a conquista do Algarve tinha terminado na segunda metade do século XIII, e por isso, por volta de 1300 não haveria falta de terras.

Com a consolidação política, é natural que essa situação acabasse e a população começasse a aumentar, mas logo depois, em meados do século XIV, a peste negra também terá matado muita gente, o que implicaria que os que restavam tinham mais terras. Finalmente, nas décadas seguintes a demografia teria finalmente aumentado, o que implica que (para uma tecnologia aproximadamente constante) finalmente os rendimentos disponíveis descessem. Talvez isto até ajude a compreender a vontade de expansão para o Norte de África, efectivamente o princípio dos “Descobrimentos”. Seja como for, a evidência parece ser de que na primeira metade do século XVI – e provavelmente também no século anterior, mas sobre isto os dados são por enquanto mais limtados – o país estava em declínio.

Num post futuro falarei sobre a recuperação a partir de meados do século XVI. Mas para variar, no próximo post falarei do século XX.

Bibliografia

Henriques, A. (2015). Plenty of land, land of plenty: the agrarian output of Portugal (1311–20). Forthcoming, European Review of Economic History

Os Descobrimentos e a suposta “idade de ouro” de Portugal

A recentemente publicada História da Expansão e do Império Português, abre com a frase, também presente na contracapa, “A Expansão portuguesa confunde-se com a própria História de Portugal”. Será isto verdade?

Os Descobrimentos são uma componente importante da identidade nacional e um motivo de orgulho para muitos Portugueses. Sem dúvida, foram um período de algum destaque para Portugal, sendo que evidentemente esse “feitos”, pelo menos a nível tecnológico, também tiveram muita influência estrangeira, nomeadamente Árabe e Catalã. Sem dúvida, tiveram um impacto importantes de longo prazo, incluindo ao nível do pensamento intelectual Europeu, e a nível económico, o comércio intercontinental que deles resultou também poderá eventualmente ter tido bastante importância, ainda que isso possa ter demorado a manifestar-se.

Mas talvez devido a esse “pioneirismo” Português durante os séculos XV e XVI, existem vários mitos relacionados com esta época, um dos mais comuns que Portugal teria ficado muito rico em consequência dos Descobrimentos. Existe  um desproporcionado ênfase, tanto a nível da compreensão popular da história, como historiográfico, sobre este período.

Existem aqui dois problemas. Em primeiro lugar, como a análise histórica tradicional não é quantitativa (nem comparativa), perde perspetiva. Como mostra este gráfico o século XVI não correspondeu de todo a um volume alto de comércio intercontinental. De um ponto de vista quantitativo, a única coisa verdadeiramente especial sobre o comércio intercontinental Português na altura dos descobrimentos é o facto de já existir.

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Em segundo lugar, como é visível no gráfico do meu primeiro post, o século XVI não foi positivo para Portugal, pelo menos até às décadas finais. Seria ainda assim possível que o comércio tivesse tido um efeito positivo, e provavelmente teve – só não pode ter sido grande, porque o próprio volume desse comércio nunca o foi durante o século XVI. (Mais tarde viria a ser maior.)

O mito que vale a pena destruir é a ideia que Portugal teria ficado muito rico em resultado dos descobrimentos, nomeadamente com o comércio com a Ásia – como refletido em expressões populares como “a árvore das patacas” e “negócio da China”. Este comércio pode ter enriquecido pontualmente algumas elites, mas devido ao seu baixo valor no século XVI o valor gerado pelos “descobrimentos” não terá sido, nem poderia ter sido, suficiente para enriquecer o país, essencialmente dependente da agricultura. (Nota: os valores no gráfico estão por pessoa e a preços constantes, ou seja, ajustados à inflação, sendo por isso comparáveis no tempo.)

Porque estava o país em declínio durante grande parte do século XVI? Para perceber isto é útil compreender um pouco a situação da economia do país em finais da idade média. É isso que vou cobrir no próximo post.

Fonte para o gráfico

Costa, Leonor Freire., Nuno Palma and Jaime Reis (2015). The great escape? the contribution of the empire to Portugal’s economic growth, 1500-1800. European Review of Economic History (2015) 19 (1): 1-22

Nota: No gráfico o comércio para a Holanda e a França correspondem a 1780.

Quando se tornou Portugal um país pobre?

Aqui começa este blogue.

Portugal hoje não é um país pobre. Bem sei que esta frase faz confusão a muita gente. Mas atenção, pois eu não estou a dizer que não existe pobreza em Portugal, e muito menos, que não há problemas para resolver. O que estou a dizer é que, à escala global, Portugal não é um país comparativamente pobre; aliás digo mais, Portugal hoje é um país relativamente rico: está em 42º na lista do FMI e em 38º na lista do Banco Mundial, num total de cerca de 200 países (2013 é o último ano disponível).

Claro que o produto per capita pode esconder problemas de distribuição. Mas quem disse que Portugal era mais desigual que os outros? A questão da evolução da desigualdade em Portugal em termos comparativos e no tempo fica para um post futuro, mas farei duas outras notas sobre o produto per capita.

Primeiro, em termos de população o PIB per capita até subestima a “sorte” que temos, por dois motivos. Primeiro, porque os países mais populados, como a China e a Índia, são bastante mais pobres que Portugal. Só contam como um país cada na lista acima, mas têm populações gigantescas que vivem em condições bem piores que nós.

O segundo motivo pelo qual o ranking baseado no PIB per capita até penaliza o verdadeiro bem-estar comparativo dos Portugueses é que, por incrível que possa parecer, Portugal se sai muito bem em outros indicadores de bem estar, como acesso a cuidados de saúde, liberdade pessoal ou criminalidade. Por exemplo, o ranking multi-dimensional do Legatum Institute põe Portugal em 27º, apenas seis lugares atrás da França, por exemplo.

O que importa aqui salientar é que do ponto de vista económico, o século XX foi, para Portugal, um bom século. Na viragem para esse século, Portugal não era mais que uma quintarola da Inglaterra, e, apesar de muitos problemas por resolver, Portugal entrou muito melhor no século XXI. Visto como um todo, para Portugal o século XX foi um sucesso, tanto em termos económicos, como sociais e políticos. (Sobre a questão da convergência ver por exemplo, o excelente artigo do Pedro Lains.)

Como todos sabemos, durante grande parte do século XX Porrtugal era um país comparativamente pobre (isto se a comparacão for, é claro, com a Europa ocidental). Importa perguntar, teria sido sempre assim? (Clicar no gráfico para aumentar.)

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A resposta à pergunta é que talvez Portugal não tivesse sido comparativamente pobre até há tanto tempo como se possa imaginar. Durante a segunda metade do século XIX e na viragem para o século XX, não há dúvidas, Portugal era pobre em comparação com grande parte dos outros países da Europa ocidental. Mas a evidência recente parece apontar que, como mostra o gráfico, esse atraso foi principalmente um resultado do século XIX, apesar do abrandamento já se começar a sentir nos finais do século XVIII.

Preciso de insistir que a pobreza de que falo aqui é relativa, não absoluta. Vista do ponto de vista de hoje todos estes países eram pobres, e as diferenças entre eles na época coberta pelo gráfico não são nada ccomparadas com as diferenças entre eles e Portugal hoje. Portugal é hoje muito mais rico que a Inglaterra era em 1800. (Ou até em 1950.)

Mas o que não pode ser negado é que Portugal perde o comboio do crescimento económico moderno no século XIX e é por essencialmente por isso que chega tão pobre ao século XX. Porque aconteceu isto? Não há conclusões definitivas: a questão é certamente complexa. Mas já existem algumas pistas que serão analisadas em posts futuros.

Fontes para o gráfico

Portugal: Palma and Reis (2014). Portuguese demography and economic growth, 1500-1850. Presented at The Great Divergence conference, University of Warwick in Venice

Spain: Álvarez-Nogal, Carlos and Leandro Prados de la Escosura (2013). The rise and fall of Spain (1270–1850). The Economic History Review 66 (1): 1–37;

England/UK: Broadberry, Campbell, Klein, Overton and Leeuwen (2015). British Economic Growth 1270-1870. Cambridge University Press

Italy: Malanima, Paolo (2011). The long decline of a leading economy: GDP in central and northern Italy, 1300-1913. European Review of Economic History 15, 169-219.

The Netherlands: van Zanden, Jan Luiten and Bas van Leeuwen (2012). Persistent but not consistent: The growth of national income in Holland 1347‐1807. Explorations in Economic History 49, 119‐130

Method for comparison: Leandro Prados de la Escosura (2000). International Comparisons of Real Product, 1820-1990: An Alternative Data Set. Explorations in Economic History 37(1): pp. 1-41.