Os Descobrimentos e a suposta “idade de ouro” de Portugal

A recentemente publicada História da Expansão e do Império Português, abre com a frase, também presente na contracapa, “A Expansão portuguesa confunde-se com a própria História de Portugal”. Será isto verdade?

Os Descobrimentos são uma componente importante da identidade nacional e um motivo de orgulho para muitos Portugueses. Sem dúvida, foram um período de algum destaque para Portugal, sendo que evidentemente esse “feitos”, pelo menos a nível tecnológico, também tiveram muita influência estrangeira, nomeadamente Árabe e Catalã. Sem dúvida, tiveram um impacto importantes de longo prazo, incluindo ao nível do pensamento intelectual Europeu, e a nível económico, o comércio intercontinental que deles resultou também poderá eventualmente ter tido bastante importância, ainda que isso possa ter demorado a manifestar-se.

Mas talvez devido a esse “pioneirismo” Português durante os séculos XV e XVI, existem vários mitos relacionados com esta época, um dos mais comuns que Portugal teria ficado muito rico em consequência dos Descobrimentos. Existe  um desproporcionado ênfase, tanto a nível da compreensão popular da história, como historiográfico, sobre este período.

Existem aqui dois problemas. Em primeiro lugar, como a análise histórica tradicional não é quantitativa (nem comparativa), perde perspetiva. Como mostra este gráfico o século XVI não correspondeu de todo a um volume alto de comércio intercontinental. De um ponto de vista quantitativo, a única coisa verdadeiramente especial sobre o comércio intercontinental Português na altura dos descobrimentos é o facto de já existir.

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Em segundo lugar, como é visível no gráfico do meu primeiro post, o século XVI não foi positivo para Portugal, pelo menos até às décadas finais. Seria ainda assim possível que o comércio tivesse tido um efeito positivo, e provavelmente teve – só não pode ter sido grande, porque o próprio volume desse comércio nunca o foi durante o século XVI. (Mais tarde viria a ser maior.)

O mito que vale a pena destruir é a ideia que Portugal teria ficado muito rico em resultado dos descobrimentos, nomeadamente com o comércio com a Ásia – como refletido em expressões populares como “a árvore das patacas” e “negócio da China”. Este comércio pode ter enriquecido pontualmente algumas elites, mas devido ao seu baixo valor no século XVI o valor gerado pelos “descobrimentos” não terá sido, nem poderia ter sido, suficiente para enriquecer o país, essencialmente dependente da agricultura. (Nota: os valores no gráfico estão por pessoa e a preços constantes, ou seja, ajustados à inflação, sendo por isso comparáveis no tempo.)

Porque estava o país em declínio durante grande parte do século XVI? Para perceber isto é útil compreender um pouco a situação da economia do país em finais da idade média. É isso que vou cobrir no próximo post.

Fonte para o gráfico

Costa, Leonor Freire., Nuno Palma and Jaime Reis (2015). The great escape? the contribution of the empire to Portugal’s economic growth, 1500-1800. European Review of Economic History (2015) 19 (1): 1-22

Nota: No gráfico o comércio para a Holanda e a França correspondem a 1780.

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