O fim do dinheiro físico?

Na Dinamarca o dinheiro físico vai acabar.

Ainda bem. O dinheiro físico é uma relíquia do passado e no futuro vai ser assim. Pelo menos nos países ricos, já que nos países pobres grande parte da população não tem sequer acesso a uma conta bancária, até porque não compensa aos bancos comportar os custos de manutenção de tais contas. (Mesmo nos países desenvolvidos, cerca de metade as pessoas não dão quaisquer lucros aos bancos.)

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O fim do dinheiro físico é uma boa ideia, entre outros motivos porque até pode tornar mais difícil a fuga de impostos e a lavagem de dinheiro.

Note-se, no entanto, que aquilo que vai acabar são só as notas e moedas físicas, não o dinheiro ou “moeda” no sentido económico do termo; “dinheiro” é apenas um ativo muito líquido e que geralmente não paga juro nominal. Por exemplo, qualquer montante numa conta a ordem.

Será que em Portugal o dinheiro físico também vai acabar? Penso que sim, que é uma questão de tempo. Mesmo para pagar um café nas aldeias mais isoladas, desde que haja acesso a uma rede de telemóveis, vai ser possível aceder à internet, e assim pagar usando o telemóvel, que irá ser usado de uma forma análoga ao multibanco, mas com custos muito menores para o comerciante.

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O Futuro da História

Decorreu há cerca de 15 dias o Iberometrics 2015, na Universidade do Porto. O nome deste evento corresponde a um trocadilho que junta as palavras Iberia e Cliometrics, sendo a última também uma palavra composta. De facto, Cliometria reúne os termos Clio, deusa da História, e Econometria. Ou seja, Iberometrics é uma conferência dedicada à História da Península Ibérica, numa perspetiva econométrica. Foi já a 7a edição.

Num total de 13 comunicações apresentadas, apenas três incidiram sobre Portugal (estava ainda previsto um quarto trabalho sobre Portugal que só não foi apresentado porque o autor faltou devido à greve da TAP, enquanto outro recaía sobre aspetos económicos da reconquista, cobrindo partes do território que correspondem hoje tanto a Portugal como à Espanha). E julgo que, talvez por a conferência ter sido em Portugal, mesmo este número representa por excesso a dimensão dos historiadores económicos portugueses, relativamente aos espanhóis, que são incomparavelmente mais.

Iberometrics

A verdade é que, em Portugal, existem muito poucos historiadores económicos a trabalhar numa perspetiva quantitativa. Isto é particularmente verdade no que diz respeito às chamadas Faculdades de Letras. Note-se, aliás, que nem sempre é assim noutros países da Europa. Por exemplo, a Universidade de Utreque, na Holanda, tem um dos mais importantes pólos de história económica da Europa, nomeadamente numa abordagem quantitativa, que está baseada no departamento de história. Nas Universidades de Oxford e Cambridge, em Inglaterra, é desenvolvida também muita história económica de natureza quantitativa realizada nos departamentos de história. Claro que, apesar de existirem alguns bons investigadores em universidades portuguesas, qualquer comparação global entre estas e aquelas é nunca nos vai favorecer, mas o que interessa é o princípio.

Será que precisamos mesmo de mais historiadores a estudar assuntos muitíssimo especializados, com pouco ou nulo interesse internacional? Para quando mais história económica de qualidade nas Faculdades de Letras em Portugal que possa aproveitar a enorme variedade de fontes disponíveis? Mas atenção que a análise quantitativa da História não dispensa a sua compreensão narrativa, pelo contrário. Os métodos quantiativos e qualitativos são complementares, não substitutos.

O meu forte desejo para as Faculdades de Letras ou departamentos de história é que pelo menos alguns dos historiadores que lá trabalhem tenham obtido alguma formação em métodos quantitativos, especialmente na área da estatística. A própria formação dos historiadores deve incluir alguns destes métodos. Se assim for de raiz, não haverá certamente tantos motivos para preocupações. A verdade é que os economistas não são historiadores. E como os historiadores, geralmente, não sabem métodos quantitativos, surgem “pontos mortos” na nossa compreensão do passado. E, por extensão, do presente.

Não vai acontecer

Vou comentar um aspeto muito específico do cenário macroeconómico apresentado no “relatório Centeno” do PS. É um aspeto que me sinto competente para comentar e que é absolutamente crucial para que todas as contas das finanças públicas façam sentido.

O que eu quero discutir são as taxas de crescimento previstas para os próximos anos. O relatório assume que,  sendo implementado o seu programa, vai haver crescimento (real) anual entre 2.3% e 3.1.% até 2019. O impacto das políticas propostas é relativo a um cenário base da Comissão Europeia para Portugal, que por sua vez também assume taxas de crescimento relativamente generosas, por volta dos 1.6 por cento por ano.

Não vai acontecer – nem um nem outro, e nem perto disso – seja quem for que ganhe as eleições, e independentemente da recuperação do emprego ou do programa político do PS aceitar a maioria das propostas do “relatório Centeno” ou não (o que infelizmente, também é improvável que aconteça; e tenho pena que assim seja, porque se a política económica do PS estivesse a cargo do Centeno isso seria uma boa escolha). Apesar de aqui eu já estar a entrar em território mais arriscado, também penso que essas taxas de crescimento não vão acontecer independentemente da evolução da economia Europeia e o Mundial.

Se chegarmos aos 1.4-1.5% previstos pelo FMI para os próximos anos estamos com muita sorte, e também isso, afirmo, peca por demasiado otimismo. As previsões do banco de Portugal também são demasiado optimistas, especialmente em relação à evolução da balança de pagamentos.

Todos estas instituições têm equipas inteiras para produzir estas estimativas. Aqui ficam a minha: Portugal não vai crescer sequer 1.3% ao ano, em termos reais, até 2019.

Isto vai querer dizer que muitas das contas feitas sobre a sustentabilidade das finanças públicas vão ser impossíveis de cumprir, mesmo que as taxas de juro do BCE continuem baixas. Seria conveniente sermos mais realistas desde já. É o primeiro passo para aceitarmos que certas reformas são necessárias para aumentar a produtividade e competitividade da economia.

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Não deve ser o que eu aqui escrevo interpretado como uma crítica específica às medidas propostas no relatório, nem às alternativas da coligação do governo. Este não é um blogue sobre política e deixo isso para terceiros.  O que estou a dizer aqui é que, independentemente das políticas propostas poderem ter ou não o efeito assumido, o cenário de base é, logo à partida, irrealista. Portugal não cresce a 2% ou mais desde meados dos anos 90, e as reformas que têm sido feitas (e algumas desfeitas) não são suficientes, digo eu, para compensar o simples facto de que o sector transacionável de Portugal não é competitivo nos mercados internacionais, e a produtividade interna é baixa.

Por favor não confundam uma previsão com um desejo. E aviso desde já que os macroeconomistas não costumam ser muito bons nas previsões. É mais frequente virem explicar em detalhe porque é que erraram, depois do facto. A minha previsão foi bastante geral e não contingente (i.e. não apresentei cenários alternativos caso aconteça A ou B), e foi baseado na minha convicção que o problema essencial da economia Portuguesa é estrutural e não conjuntural.

Portugal tem tido um crescimento anémico desde 2000. Já nos anos seguintes (e consequentemente muito antes da crise financeira internacional) não havia falta de economistas e comentadores a apresentar soluções que, implicitamente pelo menos, assumiam que o problema era de natureza cíclica. Achar que as coisas agora de repente se vão tornar melhores não é realista – aliás ainda é menos que nessa altura, porque já devia estar mais que visto que o problema não é uma recessão, mas antes falta de crónica de crescimento (e isto implica soluções diferentes). Quando se tornar óbvio quem terá razão voltamos a falar sobre este assunto. Se eu tiver de dar o braço a torcer também o farei. Até breve.