Não vai acontecer

Vou comentar um aspeto muito específico do cenário macroeconómico apresentado no “relatório Centeno” do PS. É um aspeto que me sinto competente para comentar e que é absolutamente crucial para que todas as contas das finanças públicas façam sentido.

O que eu quero discutir são as taxas de crescimento previstas para os próximos anos. O relatório assume que,  sendo implementado o seu programa, vai haver crescimento (real) anual entre 2.3% e 3.1.% até 2019. O impacto das políticas propostas é relativo a um cenário base da Comissão Europeia para Portugal, que por sua vez também assume taxas de crescimento relativamente generosas, por volta dos 1.6 por cento por ano.

Não vai acontecer – nem um nem outro, e nem perto disso – seja quem for que ganhe as eleições, e independentemente da recuperação do emprego ou do programa político do PS aceitar a maioria das propostas do “relatório Centeno” ou não (o que infelizmente, também é improvável que aconteça; e tenho pena que assim seja, porque se a política económica do PS estivesse a cargo do Centeno isso seria uma boa escolha). Apesar de aqui eu já estar a entrar em território mais arriscado, também penso que essas taxas de crescimento não vão acontecer independentemente da evolução da economia Europeia e o Mundial.

Se chegarmos aos 1.4-1.5% previstos pelo FMI para os próximos anos estamos com muita sorte, e também isso, afirmo, peca por demasiado otimismo. As previsões do banco de Portugal também são demasiado optimistas, especialmente em relação à evolução da balança de pagamentos.

Todos estas instituições têm equipas inteiras para produzir estas estimativas. Aqui ficam a minha: Portugal não vai crescer sequer 1.3% ao ano, em termos reais, até 2019.

Isto vai querer dizer que muitas das contas feitas sobre a sustentabilidade das finanças públicas vão ser impossíveis de cumprir, mesmo que as taxas de juro do BCE continuem baixas. Seria conveniente sermos mais realistas desde já. É o primeiro passo para aceitarmos que certas reformas são necessárias para aumentar a produtividade e competitividade da economia.

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Não deve ser o que eu aqui escrevo interpretado como uma crítica específica às medidas propostas no relatório, nem às alternativas da coligação do governo. Este não é um blogue sobre política e deixo isso para terceiros.  O que estou a dizer aqui é que, independentemente das políticas propostas poderem ter ou não o efeito assumido, o cenário de base é, logo à partida, irrealista. Portugal não cresce a 2% ou mais desde meados dos anos 90, e as reformas que têm sido feitas (e algumas desfeitas) não são suficientes, digo eu, para compensar o simples facto de que o sector transacionável de Portugal não é competitivo nos mercados internacionais, e a produtividade interna é baixa.

Por favor não confundam uma previsão com um desejo. E aviso desde já que os macroeconomistas não costumam ser muito bons nas previsões. É mais frequente virem explicar em detalhe porque é que erraram, depois do facto. A minha previsão foi bastante geral e não contingente (i.e. não apresentei cenários alternativos caso aconteça A ou B), e foi baseado na minha convicção que o problema essencial da economia Portuguesa é estrutural e não conjuntural.

Portugal tem tido um crescimento anémico desde 2000. Já nos anos seguintes (e consequentemente muito antes da crise financeira internacional) não havia falta de economistas e comentadores a apresentar soluções que, implicitamente pelo menos, assumiam que o problema era de natureza cíclica. Achar que as coisas agora de repente se vão tornar melhores não é realista – aliás ainda é menos que nessa altura, porque já devia estar mais que visto que o problema não é uma recessão, mas antes falta de crónica de crescimento (e isto implica soluções diferentes). Quando se tornar óbvio quem terá razão voltamos a falar sobre este assunto. Se eu tiver de dar o braço a torcer também o farei. Até breve.

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