O Futuro da História

Decorreu há cerca de 15 dias o Iberometrics 2015, na Universidade do Porto. O nome deste evento corresponde a um trocadilho que junta as palavras Iberia e Cliometrics, sendo a última também uma palavra composta. De facto, Cliometria reúne os termos Clio, deusa da História, e Econometria. Ou seja, Iberometrics é uma conferência dedicada à História da Península Ibérica, numa perspetiva econométrica. Foi já a 7a edição.

Num total de 13 comunicações apresentadas, apenas três incidiram sobre Portugal (estava ainda previsto um quarto trabalho sobre Portugal que só não foi apresentado porque o autor faltou devido à greve da TAP, enquanto outro recaía sobre aspetos económicos da reconquista, cobrindo partes do território que correspondem hoje tanto a Portugal como à Espanha). E julgo que, talvez por a conferência ter sido em Portugal, mesmo este número representa por excesso a dimensão dos historiadores económicos portugueses, relativamente aos espanhóis, que são incomparavelmente mais.

Iberometrics

A verdade é que, em Portugal, existem muito poucos historiadores económicos a trabalhar numa perspetiva quantitativa. Isto é particularmente verdade no que diz respeito às chamadas Faculdades de Letras. Note-se, aliás, que nem sempre é assim noutros países da Europa. Por exemplo, a Universidade de Utreque, na Holanda, tem um dos mais importantes pólos de história económica da Europa, nomeadamente numa abordagem quantitativa, que está baseada no departamento de história. Nas Universidades de Oxford e Cambridge, em Inglaterra, é desenvolvida também muita história económica de natureza quantitativa realizada nos departamentos de história. Claro que, apesar de existirem alguns bons investigadores em universidades portuguesas, qualquer comparação global entre estas e aquelas é nunca nos vai favorecer, mas o que interessa é o princípio.

Será que precisamos mesmo de mais historiadores a estudar assuntos muitíssimo especializados, com pouco ou nulo interesse internacional? Para quando mais história económica de qualidade nas Faculdades de Letras em Portugal que possa aproveitar a enorme variedade de fontes disponíveis? Mas atenção que a análise quantitativa da História não dispensa a sua compreensão narrativa, pelo contrário. Os métodos quantiativos e qualitativos são complementares, não substitutos.

O meu forte desejo para as Faculdades de Letras ou departamentos de história é que pelo menos alguns dos historiadores que lá trabalhem tenham obtido alguma formação em métodos quantitativos, especialmente na área da estatística. A própria formação dos historiadores deve incluir alguns destes métodos. Se assim for de raiz, não haverá certamente tantos motivos para preocupações. A verdade é que os economistas não são historiadores. E como os historiadores, geralmente, não sabem métodos quantitativos, surgem “pontos mortos” na nossa compreensão do passado. E, por extensão, do presente.

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