Vamos ficar Gregos?

Com o que se passa na Grécia na mente de todos, o risco de contágio a Portugal está bem presente. Ontem, a bolsa teve a maior queda dos últimos dois anos, incluindo portanto o período do BES.

Vou dizer algumas palavras sobre o que nos espera.

No curto prazo, tudo depende do que acontecer na Grécia. Idealmente, o melhor seria que a Grécia assinasse, desde já, um acordo de reestruturação da dívida, aumentando as maturidades, em troca de reformas estruturais. Isso iria acalmar bastante os mercados.

O mesmo efeito teria uma vitória do SIM no referendo (pelo menos, os mercados iriam acalmar para já). O governo grego promete demitir-se no caso de ganhar o SIM, o que poderá acalmar ainda mais os mercados, se isso acontecer. No entanto, o governo grego também promete ficar no Euro se o NÃO ganhar, o que não é realista. Caso o NÃO ganhe, a Grécia irá sair do Euro (mais cedo ou mais tarde) e o futuro vai ser complicado, para Portugal e para a Europa.

Mas este blogue é sobre o longo prazo, e no longo prazo o que importa é o crescimento. Keynes terá dito que, no longo prazo, estaremos todos mortos, mas na verdade é que, dentro de 10 ou 20 anos, muitos de nós estarão ainda vivos e teremos de lidar (assim como os nossos descendentes, de quem também queremos saber, terão que lidar) com as nossas escolhas.

Por isso, independentemente do que se passar lá fora, é nas políticas de apoio ao crescimento de longo prazo que temos de apostar (mas não de qualquer maneira, é preciso discutir bem quais). É bem possível que o Euro não tenha ajudado os países periféricos a este respeito, uma possibilidade importante mas complicada de analisar. Seja como for, agora uma saída organizada é muito difícil e poderia levar àquilo que Eichengreen chamou “a mãe de todas as crises financeiras”.

Já as reformas estruturais em troca de financiamento devem ser a solução pragmática de consenso. Elas têm hoje, por vezes, um mau nome “na praça” (e até há quem as negue como possibilidade), e sem dúvida que aplicadas indiscriminadamente podem dar problemas. Mas é preciso não esquecer que o Plano Marshall era essencialmente isso: ajuda condicional em troca da flexibilização e liberalização dos mercados no pós-guerra, como forma de resistir às tentações comunistas da ordem do dia. E funcionou.

Aqui fica uma entrevista de um dos subscritores da carta do link anterior, o Chris Pissarides, prémio Nobel da economia de 2010. Um nota pessoal: eu conheço bem o Pissarides, pois discuti bastante a minha tese de mestrado com ele, durante o ano letivo de 2006-7. Ele é cipriota (do lado grego), mas radicado na Inglaterra desde a licenciatura. Um dia ele disse-me: “Eu sou grego, considero-me grego.” Por isso, compreendo que esteja a viver com bastante ansiedade estes momentos.

Note-se que o Pissarides critica bastante a Alemanha nesta entrevista, mas muito mais a profunda incompetência do Syriza. De qualquer modo, existem lições para nós: soluções populistas são soluções perigosas.

Anúncios

Portugal é rico (e implicações)

Uma das “teorias” mais frequentes sobre a causa dos males de Portugal é que “a cultura” é culpada. Ou seja, os Portugueses são perguiçosos, não respeitam as instituições, são corruptos por natureza, etc.

Há vários problemas com esta “teoria”: um deles é que a cultura tende a mudar devagar, e o atraso de Portugal é essencialmente resultado do século XIX, apesar das causas poderem vir de trás e já se notar um abrandamento a partir de finais do XVIII.

Na cadeira de Economia de Desenvolvimento que eu ensinava na Nova SBE, e agora na escola de verão sobre Economia do Desenvolvimento que agora ensino na Universidade de Oxford, começo sempre por mostrar aos alunos esta imagem, e pergunto se sabem do que se trata:

Por vezes alguém diz: É a Coreia.

É de facto, uma fotografia de satélite da península da Coreia, vista do espaço, à noite. É uma imagem por vezes usada pelos economistas na área de desenvolvimento, porque ilustra bem como as instituições políticas e económicas são importantes, independentemente da cultura. Até à divisão nos anos 50 as Coreias do Norte e Sul eram o mesmo país: são o mesmo povo, falam a mesma língua e têm a mesma cultura. A divisão política destes países permite controlar estes fatores genéticos e culturais, variando apenas as instituições políticas. Veja-se também um dos artigos mais interessantes que saiu nos últimos anos sobre a medição de crescimento económico, “Medindo o crescimento económico através do Espaço”.

O resultado é espantoso: A Coreia do Norte até partiu em vantagem (a capital era lá e tem muito mais recursos naturais), mas a divergência não poderia ter sido maior — a Coreia do Norte é hoje dos países mais pobres do Mundo, e a do Sul dos mais ricos — o PIB por pessoa é hoje maior que em França, tendo partido de uma situação de pobreza extrema há pouco mais de 60 anos! 

Estas imagens são interessantes porque, ao contrário dos governos, que têm motivos políticos para por vezes mentir, estas imagens não mentem. Comparem a Coreia do Norte com os países à volta, especialmente a China – mesmo as regiões interiores – já para não falar no Japão.

Vejamos agora uma imagem do mundo inteiro.

Olhem bem para Portugal. Em comentário a um post meu anterior, alguém dizia que havia países ricos e pobres, e o Brasil era pobre, mas Portugal não havia certezas. Em primeiro lugar devo dizer que em a dicotomia ricos ou pobres é falsa, porque em termos de desenvolvimento há muitos graus de cinzento. Isto nota-se bem olhando para países como a China, a Índia, o México, ou o Brasil, que estão bastante iluminados, ao contrário de grande parte de África.

Mas o que é mais importante em relação a Portugal é perceber que não há volta a dar: Portugal é mesmo rico.

(Quem ainda tem dúvidas leia este post e também já agora este post.) Claro que algumas partes do mundo estão pouco iluminadas não por serem necessariamente pobres mas por estarem pouco povoadas – por exemplo, a Austrália. Mas reparem que mesmo as zonas de pouca densidade populacional do Japão estão mais iluminadas que grande parte do resto da Ásia.

Quanto a Portugal, comparem com o norte de África, e até mesmo a costa do Brasil. Portugal está bastante mais iluminado. Portugal é hoje um país rico, um facto que é essencial termos sempre em mente. Não para desvalorizar a crise mas, pelo contrário, para a por em perspectiva, e sermos capzes de pensar de uma forma serena como sair dela.

Até porque é essencial ter em consideração que a estratégia de desenvolvimento para um país relativamente rico terá que ser diferente da adotada para um país pobre.

No entanto não interessa conhecer só o nível de PIB per capita. Também é importante saber que desiquilíbrios existem na economia. É essencial saber onde estamos e como lá chegámos.

Portugal no British Museum

Uma expressão que as pessoas frequentemente usam em Portugal quando alguma instituição ou serviço funciona mal é: “só mesmo em Portugal!“. E uma das primeiras coisas que quem vive fora de Portugal aprende é que “lá fora” as coisas também nem sempre funcionam bem.

Vou dar um exemplo. O British Museum é um dos mais visitados e famosos museus do mundo — nem sempre pelos melhores motivos, dada a proveniência de grande parte das suas peças, que foram em geral roubadas. No século XIX, quando o império britânico estava no seu auge e quando ainda as noções modernas de conservação estavam distantes do que são hoje, os britânicos dedicaram-se a pilhar tudo o que podiam. Os gregos ficam regularmente furiosos com as quantidades inestimáveis da sua arte que existem no BM e exigem o seu retorno a Atenas. No caso de murais assírios, os britânicos cortaram paineis e deixaram as letras, pois não compreendiam o que dizia! Apesar de tudo isto, não é desprovido de sentido o argumento de que no BM as peças estão hoje melhor protegidas do que no seu sítio de origem, como comprova o que se tem passado na Síria.

É claro, vários povos europeus fizeram isto, é testemuna a ilha dos museus em Berlim e várias praças em Paris onde se exibem monumentos egípcios roubados pelos exércitos napoleónicos. (Em Portugal, a biblioteca Joanina de Coimbra foi toda enterrada para escapar à pilhagem, e a de Mafra foi para o Brasil, aliás nem toda regressou.)

Seja como for, o BM tem vários elementos na sua coleção que têm a ver com Portugal. Deles poderei vir a falar mais no futuro. Hoje quero falar da imagem deste post, uma moeda portuguesa, uma das peças que existem no BM, e não terá sido roubada. Várias nomes portugueses deram designações a moedas inglesas. A guinea, a principal moeda de ouro inglesa, deve o seu nome à Guiné, e a milrees (de mil réis) e os joannes (de João; D. João V).

O que é curioso é na etiqueta de explicação desta moeda no BM, também reproduzida neste link, existem vários erros. Aqui ficam os que eu notei:


1. A descoberta do ouro no Brasil não foi em 1692-4, como indicado, mas alguns anos antes.

2. O pico de produção não foi em 1720, mas cerca de 25 anos mais tarde.

3.  Não há evidencia para dizer que “in a couple of decades the world’s supplies may have been doubled”, como está escrito

4. Finalmente, e esta é grave, está escrito que “England received complete freedom to trade with Brazil”; ou seja, que no século XVIII a Inglaterra podia comercializar livremente e de forma direta com as colónias portuguesas no Brasil, sem ter Portugal (continental) como intermediário. Na verdade, o fim do pacto colonial de natureza mercantilista, que obrigava a que todos os produtos das colonias passassem antes pelas alfandegas em Portugal, só se deu com a abertura dos portos em 1808.

Alguns destes erros são uma repetição do que está dito no livro de Pierre Vilar de 1969, um livro aliás muito pouco cuidadoso na forma como lida com as fontes primárias e com as citações em geral.

Já há uns anos escrevi uma carta aos directores da secção de história monetária do BM, detalhando estes erros e dando as referências actualizadas que apoiavam o que estava a dizer. No entanto, continua tudo igual no museu, e no site, como podem ver no link.

Não é só em Portugal que as instituições, por vezes, perpetuam o disparate.

Em Portugal aconteceu um milagre

O “milagre” foi o crescimento económico das últimas seis décadas e meia. Foi um dos acontecimentos mais importantes da História de Portugal. Foi sem dúvida o acontecimento mais importante da História de Portugal, pelo menos no que toca o bem-estar dos portugueses. Por comparação, tudo o resto, desde o tempo dos Afonsinos, é secundário.

Quem ouça este facto pela primeira vez , se não ficar espantado, é porque ainda não o interiorizou.

Portugal, Belem, Jeronimo Monastery

Em 2005, o rendimento médio por pessoa, ajustado à inflação, era em Portugal mais de 7 vezes o que tinha sido em 1950. Ver os dados aqui.

Mais de 7 vezes! Pensem bem. E por pessoa. Imaginem que o vosso rendimento anual era agora, de repente, dividido por 7. Era assim que,em média, tinham de viver os vossos antepassados. Sim, era possível. Afinal, vocês estão aqui agora para o provar, já que isso implica que os vossos antepassados sobreviveram e até deixaram descendência.

(Nota: Esta comparação não é muito rigorosa por alguns motivos, mas ilustra de forma aproximada as magnitudes de que estamos a falar. Aliás, em relação ao bem-estar peca certamente por defeito, porque ignora que a qualidade dos bens consumidos também melhorou, e a variedade aumentou, para já não falar dos enormes ganhos em acessos à saúde e à educação.)

Quase ninguém ficou para trás. O crescimento económico moderno foi uma maré que subiu todos os barcos.

Ou seja, apesar da evolução da desigualdade no longo prazo ser uma questão em aberto para a qual não temos certezas, o que não há dúvida é que quase todos ficaram a ganhar com o que aconteceu em Portugal nos últimos 65 anos. Foi a maior revolução da nossa História.

Afinal, ao contrário do que se passa na maioria dos outros países da Europa Ocidental, o crescimento económico moderno em Portugal está suficientemente próximo de nós para que todos saibamos, por experiência própria, ou por ouvirmos de familiares que tiveram essa experiência, o que foi viver num Portugal verdadeiramente pobre. Como qualquer pessoa que já tenha estado em África, em grande parte da Ásia, ou em muitas zonas da América do Sul saberá, Portugal hoje não é pobre, longe disso.

Alentejo, Portugal, Sunrise, Plains, Landscape

O “milagre” do crescimento económico mudou tudo. Foi mais espetacular que qualquer filme de acção. Nunca antes, em Portugal, tantas e tão grandes oportunidades foram criadas em tão pouco tempo, e para tanta gente. Com o histerismo mediático à volta da “crise” e da “austeridade” é fácil esquecer isto. E está errado quem já me quiser acusar de usar aspas nestes últimos dois termos eu por achar que tudo está bem ou que não há problemas para resolver; se for esse o seu caso, por favor leia este post.

Mas o que a crise não nos deve fazer esquecer é o espetacular progresso que Portugal conseguiu na segunda metade do século XX. Reparem que, na verdade, todos esses ganhos aconteceram essencialmente no meio século entre 1950 e 2000. Desde então, Portugal tem estado, em geral, parado. Em alguns aspetos que afetam o bem-estar mas não aparecem no PIB por pessoa Portugal até talvez tenha melhorado desde então, e noutros piorado.

Park Of Nations, Lisbon, Portugal, Lisbon Oceanarium

A pergunta mais importante que podemos fazer sobre toda a História de Portugal é porque que razão crescimento económico moderno aconteceu precisamente neste período. Já num anterior post, sublinhei que até relativamente tarde, Portugal não era mais pobre do que outros países europeus da Europa ocidental. Por isso, as condições iniciais não pareciam, à primeira vista, más. Em 1800 Portugal era mais rico que a Alemanha ou a Suécia, países hoje venerados em Portugal como o pináculo da eficiência, hábitos de trabalho, etc.

Mas muitos desses países começaram a crescer no século XIX, e Portugal ficou para trás. Porquê? É uma das questões mais importantes que podemos perguntar sobre a nossa história. É a pergunta mais importante que podemos e devemos colocar sobre a nossa História. Porque perdeu Portugal o comboio?

E porque foi mais tarde capaz de recuperar? É essencial refletirmos sobre estes assuntos, até porque as respostas podem ajudar-nos a compreender melhor como sair do problema em que nos encontramos agora.

Portugal e a dívida: um problema de hoje?

As obrigações financeiras de diferentes maturidades pagam taxas de juro anualizadas diferentes. Por exemplo, obrigações com períodos mais longos até ao pagamento pagam maiores taxas de juro. Há vários motivos para isto ser assim.

Suponhamos um investidor que está a considerar como gastar 1000 euros para ganhar o máximo dinheiro possível num período de 2 anos. Tem duas opções:

Opção 1. Compra uma obrigação do tesouro de 1 ano que paga 2% (este ano, porque para o ano logo se vê quanto paga)

Opção 2. Compra uma obrigação de dois anos que paga 3% por ano.

O que deve fazer? Será que a opção 2, é de certeza, melhor?

Calculator, Calculation, Insurance, Finance, Accounting

Não é claro que a opcção 2 seja melhor. A escolha do investidor vai depender, principalmente, do que o investidor ache que vai acontecer no futuro, ou seja, quanto é que a obrigação com maturidade a um ano (da opção 1) vai pagar no segundo ano.

Em geral, as obrigações têm um padrão parecido com o do exemplo acima porque comprar uma obrigação de 2 anos tem uma desvantagem de liquidez relativamente a comprar agora uma de um ano, e depois para o ano outra, porque no segundo caso há risco adicional, dado não ser possível prever exactamente o futuro.

Por isso, em geral, os juros aumentam com a maturidade. Diz-se que a yield curve – que estabelece a relação entre os juros e a maturidade – é positiva, ou “normal”. (Acontece por vezes, no entanto, que os juros de longo prazo podem ser menores que os de curto prazo, levando a uma curva invertida, o que geralmente quer dizer que os investidores antecipam que no longo prazo as taxas de juro de curto prazo vão ser mais baixas do que são agora – ou seja, antecipam que vem aí uma recessão, sem grande subida de inflação associada.)

Num recente artigo, o  Rui Pedro Esteves, professor na Universidade de Oxford, estuda como, em finais do século XIX, em períodos em que a curva de rendimentos (yield curve) de obrigações portuguesas em Londres tinha tendência para subir, os governos em Portugal foram capazes de contrariar essa tendência através de intervenções no mercado.

Através dessas intervenções, os governos portugueses foram capazes de manter as taxas de juro domésticas baixas, mas ao mesmo tempo Portugal ia lentamente acumulando uma enorme dívida externa. O custo principal era que, para evitar a desvalorização do câmbio por causa do peso do serviço da dívida externa, o governo e o Banco de Portugal tiveram de intervir no mercado cambial, aumentando o juro de curto prazo. Ou seja, comprimiam o yield de longo prazo, à custa de uma maior taxa de curto prazo: um “twist” à portuguesa.

Mas Portugal estava a ficar sem tempo, e a charada só durou até um dia. A escala da dívida tornou-se tanta que começou a tornar-se óbvio que Portugal não conseguiria pagar. E, quando uma conjuntura internacional desfavorável apareceu no princípio da última década do século XIX, esse momento chegou. Portugal viria a ficar várias décadas sem acesso a dívida externa.