Portugal no British Museum

Uma expressão que as pessoas frequentemente usam em Portugal quando alguma instituição ou serviço funciona mal é: “só mesmo em Portugal!“. E uma das primeiras coisas que quem vive fora de Portugal aprende é que “lá fora” as coisas também nem sempre funcionam bem.

Vou dar um exemplo. O British Museum é um dos mais visitados e famosos museus do mundo — nem sempre pelos melhores motivos, dada a proveniência de grande parte das suas peças, que foram em geral roubadas. No século XIX, quando o império britânico estava no seu auge e quando ainda as noções modernas de conservação estavam distantes do que são hoje, os britânicos dedicaram-se a pilhar tudo o que podiam. Os gregos ficam regularmente furiosos com as quantidades inestimáveis da sua arte que existem no BM e exigem o seu retorno a Atenas. No caso de murais assírios, os britânicos cortaram paineis e deixaram as letras, pois não compreendiam o que dizia! Apesar de tudo isto, não é desprovido de sentido o argumento de que no BM as peças estão hoje melhor protegidas do que no seu sítio de origem, como comprova o que se tem passado na Síria.

É claro, vários povos europeus fizeram isto, é testemuna a ilha dos museus em Berlim e várias praças em Paris onde se exibem monumentos egípcios roubados pelos exércitos napoleónicos. (Em Portugal, a biblioteca Joanina de Coimbra foi toda enterrada para escapar à pilhagem, e a de Mafra foi para o Brasil, aliás nem toda regressou.)

Seja como for, o BM tem vários elementos na sua coleção que têm a ver com Portugal. Deles poderei vir a falar mais no futuro. Hoje quero falar da imagem deste post, uma moeda portuguesa, uma das peças que existem no BM, e não terá sido roubada. Várias nomes portugueses deram designações a moedas inglesas. A guinea, a principal moeda de ouro inglesa, deve o seu nome à Guiné, e a milrees (de mil réis) e os joannes (de João; D. João V).

O que é curioso é na etiqueta de explicação desta moeda no BM, também reproduzida neste link, existem vários erros. Aqui ficam os que eu notei:


1. A descoberta do ouro no Brasil não foi em 1692-4, como indicado, mas alguns anos antes.

2. O pico de produção não foi em 1720, mas cerca de 25 anos mais tarde.

3.  Não há evidencia para dizer que “in a couple of decades the world’s supplies may have been doubled”, como está escrito

4. Finalmente, e esta é grave, está escrito que “England received complete freedom to trade with Brazil”; ou seja, que no século XVIII a Inglaterra podia comercializar livremente e de forma direta com as colónias portuguesas no Brasil, sem ter Portugal (continental) como intermediário. Na verdade, o fim do pacto colonial de natureza mercantilista, que obrigava a que todos os produtos das colonias passassem antes pelas alfandegas em Portugal, só se deu com a abertura dos portos em 1808.

Alguns destes erros são uma repetição do que está dito no livro de Pierre Vilar de 1969, um livro aliás muito pouco cuidadoso na forma como lida com as fontes primárias e com as citações em geral.

Já há uns anos escrevi uma carta aos directores da secção de história monetária do BM, detalhando estes erros e dando as referências actualizadas que apoiavam o que estava a dizer. No entanto, continua tudo igual no museu, e no site, como podem ver no link.

Não é só em Portugal que as instituições, por vezes, perpetuam o disparate.

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