Portugal é rico (e implicações)

Uma das “teorias” mais frequentes sobre a causa dos males de Portugal é que “a cultura” é culpada. Ou seja, os Portugueses são perguiçosos, não respeitam as instituições, são corruptos por natureza, etc.

Há vários problemas com esta “teoria”: um deles é que a cultura tende a mudar devagar, e o atraso de Portugal é essencialmente resultado do século XIX, apesar das causas poderem vir de trás e já se notar um abrandamento a partir de finais do XVIII.

Na cadeira de Economia de Desenvolvimento que eu ensinava na Nova SBE, e agora na escola de verão sobre Economia do Desenvolvimento que agora ensino na Universidade de Oxford, começo sempre por mostrar aos alunos esta imagem, e pergunto se sabem do que se trata:

Por vezes alguém diz: É a Coreia.

É de facto, uma fotografia de satélite da península da Coreia, vista do espaço, à noite. É uma imagem por vezes usada pelos economistas na área de desenvolvimento, porque ilustra bem como as instituições políticas e económicas são importantes, independentemente da cultura. Até à divisão nos anos 50 as Coreias do Norte e Sul eram o mesmo país: são o mesmo povo, falam a mesma língua e têm a mesma cultura. A divisão política destes países permite controlar estes fatores genéticos e culturais, variando apenas as instituições políticas. Veja-se também um dos artigos mais interessantes que saiu nos últimos anos sobre a medição de crescimento económico, “Medindo o crescimento económico através do Espaço”.

O resultado é espantoso: A Coreia do Norte até partiu em vantagem (a capital era lá e tem muito mais recursos naturais), mas a divergência não poderia ter sido maior — a Coreia do Norte é hoje dos países mais pobres do Mundo, e a do Sul dos mais ricos — o PIB por pessoa é hoje maior que em França, tendo partido de uma situação de pobreza extrema há pouco mais de 60 anos! 

Estas imagens são interessantes porque, ao contrário dos governos, que têm motivos políticos para por vezes mentir, estas imagens não mentem. Comparem a Coreia do Norte com os países à volta, especialmente a China – mesmo as regiões interiores – já para não falar no Japão.

Vejamos agora uma imagem do mundo inteiro.

Olhem bem para Portugal. Em comentário a um post meu anterior, alguém dizia que havia países ricos e pobres, e o Brasil era pobre, mas Portugal não havia certezas. Em primeiro lugar devo dizer que em a dicotomia ricos ou pobres é falsa, porque em termos de desenvolvimento há muitos graus de cinzento. Isto nota-se bem olhando para países como a China, a Índia, o México, ou o Brasil, que estão bastante iluminados, ao contrário de grande parte de África.

Mas o que é mais importante em relação a Portugal é perceber que não há volta a dar: Portugal é mesmo rico.

(Quem ainda tem dúvidas leia este post e também já agora este post.) Claro que algumas partes do mundo estão pouco iluminadas não por serem necessariamente pobres mas por estarem pouco povoadas – por exemplo, a Austrália. Mas reparem que mesmo as zonas de pouca densidade populacional do Japão estão mais iluminadas que grande parte do resto da Ásia.

Quanto a Portugal, comparem com o norte de África, e até mesmo a costa do Brasil. Portugal está bastante mais iluminado. Portugal é hoje um país rico, um facto que é essencial termos sempre em mente. Não para desvalorizar a crise mas, pelo contrário, para a por em perspectiva, e sermos capzes de pensar de uma forma serena como sair dela.

Até porque é essencial ter em consideração que a estratégia de desenvolvimento para um país relativamente rico terá que ser diferente da adotada para um país pobre.

No entanto não interessa conhecer só o nível de PIB per capita. Também é importante saber que desiquilíbrios existem na economia. É essencial saber onde estamos e como lá chegámos.

Anúncios

3 thoughts on “Portugal é rico (e implicações)

  1. O seu olhar sobre o Brasil é diferente do meu que sou brasileiro. De fato, o Brasil continua como sempre foi desde o seu descobrimento. A faixa litorânea é que é povoada. O Interior está vazio. O que demonstra caos na cidade e concentração de riqueza nos campos. Aposto muito em aspectos culturais. Na América do espanhóis e portugueses só há pobreza. Já na dos ingleses e franceses a historia é outra. Adam Smith , em seu livro Riqueza das Nacoes no capítulo colônias já me apresentou a resposta: o modelo portugues e espanhol era o da pura pilhagem. Ainda os brasileiros o repetem até hoje. Finalmente, quanto à questão de grau de desenvolvimento, permita-me discordar. Creio que essa questão é do tipo zero ou um. Assim sendo, creio que portugal tem um pé no um e o Brasil certamente no zero.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s