É importante falar dos consensos

Quantos temos a certeza sobre qual o caminho exato a seguir? Só os dogmáticos.

A verdade é que muitas questões importantes não são questões nada simples e, mesmo assim, toda a gente quer ter uma “opinião”. Mesmo entre os economistas, há imenso desacordo. No entanto, vou aqui argumentar, há bastante menos desacordo entre os economistas do que entre a população em geral, e os políticos em particular (que refletem em grande medida a população).

Um grego de outros tempos, Platão,argumentava na República, talvez um dos textos fundamentais para a sociedade ocidental, que a ignorância das massas deveria levar a elite intelectual a decidir por todos. Deveria um comandante de um barco perguntar aos passageiros como navegar ou seria melhor deixar isso aos especialistas? Felizmente, tais argumentos anti-democráticos estão hoje postos de parte (pelo menos no Ocidente e para já), mas não deixa de ser verdade que é muito importante que a população esteja bem informada para que possa tomar boas decisões.

Infelizmente, nem sempre isso é fácil quando certos jornalistas, políticos, e políticos disfarçados de comentadores dizem um sem-fim de disparates sobre os quais não deveria haver qualquer dúvida, e talvez o jargão ou a retórica convença as pessoas de que sabem do que estão a falar. (Infelizmente, às vezes nem acertam em definições simples sobre taxas de juro, ou não compreendem que a distribuição de credores pode mudar bastante em diferentes maturidades, e isso só pode confundir a população. Os constantes disparates não são inspiradores de confiança, mas isso é outra conversa.)

A verdade é que existe um sem-fim de mitos sobre estes assuntos, que efetivamente não são simples, mas apesar de toda a incerteza, e até ideologia (sim, apesar de tudo os economistas são humanos), pode-se observar um consenso alargado entre os economistas sobre certos aspectos. Nesse sentido, pretendo aqui enfatizar quais são os consensos que existem.

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Em primeiro lugar, existe bastante consenso contra a inflexibilidade de alguns dos credores. Quase todos os economistas e historiadores económicos concordam, por exemplo, que um incumprimento (default) parcial da Grécia é necessário já devia ter acontecido (a Grécia já teve um default parcial em 2012, mas não foi suficiente). Felizmente, o FMI está a reverter a sua posição anterior nesta matéria, mas ainda falta a comissão Europeia.

O primeiro programa do FMI para a Grécia em 2010 foi na verdade também em grande parte uma forma de evitar que bancos Franceses e Alemães expostos à dívida Grega tivessem prejuízos. Nessa altura devia ter havido default, mas hoje isso não é simples, e o BCE não pode (devido ao seu mandato) emprestar aos bancos com base em dívida pública como colateral se sabe que esta pode vir a ser repudiada.

O alívio da dívida seria importante (se acompanhado de promessas credíveis). Mas também existe um largo consenso contra a forma como o Syriza tem gerido a situação. Não digo que seja um consenso absoluto, mas não há dúvida que um invulgar número de economistas geralmente são considerados “de esquerda” criticam o desastre do processo.

Aqui fica um artigo muito recente de Eichengreen em que ambos estes pontos são defendidos. Penso que também é importante ser dito que os países do Sul da Europa têm que aceitar que é preciso fazer certas reformas, e que estas podem a médio-prazo levar a melhorias para quase toda a população. É preciso não dar espaço a populismos políticos. Nem tudo está bem na Europa do Sul (crescimento anémico, altos níveis de desemprego jovem, etc) a ideia de que a culpa é toda “do exterior” é falsa.  No caso da Grécia, o longo historial de expansões económicas insustentáveis com contabilidade nacional aldrabada por motivos políticos, facilidade de fuga ao fisco, etc, tem que melhorar.

Por exemplo, uma reportagem de Fernanda Câncio na Grécia para o DN que anda a circular nas redes sociais dá conta de casos de professores reformados antes dos 50, que trabalhavam 18 horas por semana, nunca foram avaliados, e que estão a receber 1100 euros por mês, depois de um corte de 100 (quando os novos professores recebem 700). Nenhum jovem deve ficar indiferente a isto. Seria possivel citar aqui também trabalhos de natureza mais académica (mas ainda assim acessíveis) que olham para estes problemas de uma forma mais sistemática. 

É importante que o público esteja bem informado e obrigue os decisores políticos a fazer boas escolhas. Nem sempre existe a certeza sobre quais são essas escolhas, mas começar por excluir as que são más de certeza já seria um bom ponto de partida.

O futuro da Europa está nas mãos dos gregos. Que escolham bem.

Pergunta: eu consigo pensar em economistas conhecidos que fazem campanha pelo “não”, como Krugman, Sachs, ou Stiglitz, apesar de haver muitos mais pelo “sim”. Mas não consigo sequer pensar em nenhum académico que seja contra a reestruturação da dívida (desde que acompanhada de reformas credíveis, estas é que podem ser difícies de conseguir). Se conseguirem pensar em alguém que seja contra isto (como é o caso do Eurogrupo) escrevam nos comentários, por favor.

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