Será que a cultura é importante para compreender porque são uns países mais pobres que outros?

Num post anterior, procurei desmontar a ideia de que a cultura Portuguesa (no seu sentido mais lato e profundo) pudesse explicar a maioria dos problemas económicos existentes em Portugal. Argumentei que a natureza das instituições também é um fator importante.

Claro, é sempre possível defender que em muitos casos as instituições são, em si, um resultado da “cultura” (ou seja, são endógenas, no jargão económico). Mas, em resposta a isso, temos os casos da divisão da Coreia (entre os anos 1950 e hoje) ou da Alemanha (entre o fim da segunda guerra mundial e 1989), situações em que a população (em termos genéticos e culturais) foi mantida constante, e no entanto foi possível observar diferenças económicas radicais, resultantes de diferentes escolhas políticas e institucionais. Será que pretendo dizer que a “cultura” não interessa para explicar o comportamento dos povos?

Não, de modo algum. Um caso “espelho” do que foi apresentado no referido post também já foi estudado: por exemplo, situações em que pessoas com diferentes culturas foram sujeitas ao mesmo choque, verificando-se até que ponto elas reagiam de forma idêntica. Um artigo estudou como pessoas de diferentes culturas que iam a bordo do Titanic reagiram quando confrontadas com o facto de que o barco ia afundar e haviam apenas barcos salva-vidas para cerca de metade. Os autores concluíram que ser inglês diminuía muito a probabilidade de sobreviver. Para os ingleses, o ditado “mulheres e crianças primeiro” era muito mais valorizado do que para pessoas de outras culturas, mesmo bastante próximas, como os irlandeses e americanos, inclusive depois de controlar (portanto, mantendo constante, através de métodos estatísticos) uma série de outros factores.

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E qual o efeito da “cultura” no comportamento económico? Não é fácil responder, porque a própria “cultura” é, em parte, um resultado das circunstâncias económicas. Faz parte da “cultura” alentejana comer açorda? Sim, mas durante muito tempo isso comia-se porque era uma região pobre e usavam-se os ingredientes locais, azeite e alho, com o pão de ontem. O que hoje é “cultura” podia ontem ser simples racionalidade económica. Por isso, comparação do efeito de medidas de “cultura” em medidas de desenvolvimento tem que ser feita com muito cuidado, para não se confundir correlação com causalidade. Por exemplo será que o protestantismo causa melhores resultados económicos, como argumentava Max Weber?

Não é fácil responder. Uma correlação de um indicador económico ou escolar numa variável binária de “protestantismo” não nos dá o que interessa, porque o protenstantismo pode ser uma escolha feita pelos mais espertos. Se assim for, parece que é o protestantismo a causar melhores resultados, mas na verdade são os melhores alunos a ter melhores resultados, alunos cujas famílias escolhem manterem-se protestantes. O facto de existir correlação não significa causalidade! A situação ideal seria ter uma mudança repentina e exógena de cultura e ver o que acontece, mas isso quase nunca existe. O que podemos encontrar de mais próximo é uma variação relativamente rápida na mesma. Este artigo argumenta que, no século XIX, as cidades alemãs mais perto de Wittenberg tinham maior probabilidade de adoptar o protestantismo, e por isso, para poderem ler a Bíblia, as pessoas que lá viviam acabaram por atingir níveis mais altos de capital humano. Tudo parece indicar que a cultura importa.

Há conclusões: se em Portugal não cumprir horários e estar sempre atrasado até tem um certo “estilo”, se não se dá valor suficiente à educação de qualidade, e por aí em diante, que não haja ilusões: estes fatores podem contribuir para nos manter atrás de outros países.

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One thought on “Será que a cultura é importante para compreender porque são uns países mais pobres que outros?

  1. A África parece ser um lugar de quebra dos mitos de línguas estrangeiras. Quando você fica sabendo que 70 milhões de pobres no Congo falam francês e vê frases como esta por exemplo “Ghana Haulage transport drivers association” escrita numa construção tosca de materiais pobres, tipo barraco de favela, na fronteira com Burkina Fasso; certifica-se daquele mito…:)

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