Portugal e o “efeito salsa” (ou: será que os ricos são mais felizes?)

A evidência que temos parece indicar que sim. Quanto mais rico um país, maior a felicidade média reportada pelas pessoas:

Each Doubling of GDP is Associated with a Constant Increase in Life Satisfaction - Deaton

Mas não só isto é verdade com também é verdade que dentro de cada país, existe uma correlação positiva entre rendimento e felicidade estimada:

Distribution of Estimates of the Within-Country Life Satisfaction–Income Gradient - Stevenson & Wolfers (2008)

Em linguagem económica, cada unidade monetária tem um retorno marginal decrescente. Isto faz sentido: bens de luxo como viagens ao estrangeiro são agradáveis, mas não só são muito mais caras como não são tão essenciais para o nosso bem-estar como os bens mais básicos.

Mas nem todos os países são iguais. Note-se que em Portugal o nível de bem-estar subjetivo é bastante inferior ao de países bastante mais pobres, como essencialmente quase todos os da América Latina, incluindo mesmo alguns consideravelmente mais pobres, como o México, a República Dominicana ou o Guatemala.

O bem estar subjetivo é aqui medido através de inquéritos em que as pessoas respondem a perguntas do tipo: sense-se satisfeito com a sua vida? A conclusão é que existem algumas variáveis determinantes para o bem estar — possivelmente de natureza cultural — que fazem que sejamos mais infelizes do que outros países bastante mais pobres. (No caso da América Latina o contrário é verdade; é isso o “efeito salsa”.)

Subjective-well-being-SWB-per-capita-gross-domestic-product-GDP-and-different-types-of-societies-Inglehart-Welzel-and-Foa

Também retiramos daqui que a distância de bem-estar da Europa do sul em relação a países do Norte da Europa como Reino Unido, Finlândia, Holanda, Noruega ou Dinamarca é ainda maior do que a sugerida apenas pelas diferenças de rendimento. (É interessante e bastante significativo verificar que a Alemanha é a exceção a esta regra.) Mas podíamos estar pior — no caso dos países da Europa do Leste, o efeito negativo parece ser ainda mais forte.

Referências

Deaton (2008). Income, Health, and Well-Being around the World: Evidence from the Gallup World Poll. Journal of Economic Perspectives, 22, 2, 53–72.

Stevenson B, J. Wolfers (2008). Economic Growth and Subjective Well-Being: Reassessing the Easterlin Paradox. Brookings Paper Econ Activ (Spring):1–87.

Inglehart, Foa, Peterson, and Welzel (2008). Development, Freedom, and Rising Happiness: A Global Perspective (1981–2007). Perspectives on Psychological Science, 3, 4, 264–285.