Portugal era a Nigéria

Em 1950, os portugueses tinham um redimento por pessoa quase tão baixo como o dos nigerianos de hoje. E o português “médio” tinha menos rendimento que o cabo-verdiano “médio” tem hoje.

Devido ao histerismo mediático à volta de assuntos de curto prazo, e aos (reais) problemas que a economia portuguesa tem enfrentado nos últimos 15 anos, é fácil esquecer os enormes progressos que Portugal fez no século XX.

Portugal em 1950 ($2086 por pessoa) era mais pobre que Moçambique é hoje (2010, últimos dados disponíveis, $2613) e apenas marginalmente mais rico que a Nigéria também em 2010 ($1876). Portugal era, em 1950, claramente mais pobre que Cabo Verde é hoje ($2735, dados de 2008). 

Estes números são em termos reais (dólares PPP de 1990), ou seja, já corrigem o efeito da inflação e de diferentes custos de vida em diferentes sítios.

8- Ilha do Fogo a renacer das cinzas - Revista Nos Genti -

Estas comparações não são isentas de problemas, até por não terem em consideração questões de distribuição. Angola tinha $1600 por pessoa em 2010, o que contrasta com a impressão (errada) que muita gente tem em Portugal de Angola ser um país com muitos ricos. Mas também é possível que o “bem estar mediano” em Portugal em 1950 fosse superior ao de Cabo Verde hoje. Seja como for, como eu discuti anteriormente, Portugal era bastante desigual em 1950, mas também o são quase todos os países pobres hoje. E estou aqui a definir riqueza (um stock) como rendimento por pessoa (um fluxo), o que apenas é “aproximadamente” correto, mas na prática não faz diferença neste contexto.

Finalmente, nem sempre é fácil comparar bens e serviços de diferente qualidade e natureza (não existiam “tablets” em 1950) através do tempo. Mas como a qualidade e variedade dos bens disponíveis aumentou, e a desigualdade diminuiu, estas considerações são secundárias, e até dão mais peso à evidência quantitativa. Na segunda metade do século XX, Portugal fez os maiores progressos de sempre da sua História.

Fonte para os dados: Maddison project

Fonte para a foto (Cabo Verde): Nós Genti

Os portugueses no mundo: um grande Império?

Os portugueses são tendencialmente muito orgulhosos da sua História. Quando encontro um português por esse mundo fora e digo que sou historiador económico, rapidamente a conversa é levada para as imensas terras que supostamente conquistámos … o mundo era nosso, descobrimos tudo e mais alguma coisa e, a certa altura, tínhamos um império enorme! E Portugal ficou muito rico por causa de tudo isso!

Só há um problema: nada disso aconteceu.

A narrativa é falsa, e quem nela acredita é, sem o saber, vítima de propaganda, vinda bastante de trás mas com enorme dificuldade em desaparecer.

Vamos por partes. A primeira coisa a compreender é que, com a exceção do Brasil (e possivelmente de certas partes de África, já no século XX, mas mesmo aí com muitas limitações), Portugal nunca teve um império terrestre. Nem podia ter tido.

Vou aqui falar do período 1500-1800, por ser neste período que incidem os maiores mitos.

Neste período, a Europa não estava muito à frente da Ásia, em termos de riqueza, nem em termos científicos ou tecnológicos. Aliás, até há uma tese muito famosa, de Kenneth Pomeranz, segundo o qual, mesmo em 1800, as partes mais ricas da China eram tão ricas como as partes mais ricas da Europa (“A Grande Divergência” – este livro já está traduzido em Português). Também vale a pena explorar o site dedicado a estes assuntos, de Bin Wong e Pomeranz, disponível aqui. Em relação a 1800, é provável que esta tese seja exagerada. Mas em relação ao período 1500-1700 é plausível. Aliás, os primeiros viajantes portugueses a chegar à China (como por exemplo Gaspar da Cruz) elogiavam o nível de vida dos chineses, em comparação com aquilo que conheciam de Portugal (estes ensaios estão disponíveis, por exemplo, na edição de Charles Boxer).

Veja-se em baixo a comparação do navio do início do século XV utilizado por Zheng He, ao serviço da dinastia chinesa Ming (que atingiu a costa de Moçambique), com a nau São Gabriel, de Vasco da Gama (uma nau, porque a caravela da armada, São Miguel, ainda era mais pequena). Aqui fica um link com mais informação para quem queira saber mais. Notem, no entanto, que no século XVI, quando Portugal chegou à China, eles já não sabiam construir estes navios.

Ainda por cima, mesmo que a Ásia estivesse um pouco atrás, em termos de riqueza por pessoa, tinha uma população muito maior que a europeia – mais de 300 milhões em vez dos <75 milhões que existiam na Europa por volta de 1500. Este tipo de rácios populacionais não é de agora!

Isto é importante para perceber porque é que Portugal nunca poderia ter tido um império terrestre na Ásia. O que Portugal teve foi um “império” marítimo, apoiado pelas duas tecnologias militares nas quais a Europa tinha, de facto, superioridade sobre outras civilizações: a construção de embarcações militares com canhões prontos a afundar quem quer que fosse (por exemplo, no Índico isso incluía quem não pagasse o “cartaz”, ou seja, quem não cedesse ao que, na prática, não era mais que extorsão por parte dos portugueses), e a construção de fortalezas. Eram apenas estas duas tecnologias, as quais, evidentemente, se apoiavam mutuamente, que permitiam uma superioridade militar marítima. Qualquer invasão terrestre seria rapidamente suprimida.

Tonio Andrade conta de forma soberba, em “Lost Colony”, a história da defesa holandesa da ilha de Taiwan quando foi invadida pelo pirata Koxinga, que continuava a apoiar os Ming depois do golpe de estado Qing na China. Há duas coisas importantes a perceber aqui. Em primeiro lugar, os holandeses só foram desalojados por causa de algo que se tinha passado na China a nível político e que nada tinha a ver com os europeus. Ou seja, os europeus na Ásia eram actores passivos no filme principal. Em segundo lugar, quando os chineses invadiram, a tecnologia militar europeia serviu de pouco, especialmente em combate terrestre, onde uma divisão de mosquetes, com a sua lenta cadência de tiro, foi rapidamente massacrada por um enxame de chineses com setas e catanas. A fortaleza foi, efetivamente, capaz de resistir algum tempo, apenas por ser um contexto marítimo e porque os chineses não tinham pressa (nem aquele era o exército principal, longe disso), mas acabou por cair com alguma facilidade.

Também no Japão, os portugueses foram expulsos com relativa facilidade, logo que o imperador tomou essa decisão. A última armada diplomática, enviada por Macau no final do século XVI com o objectivo de melhorar as relações políticas, de modo que o comércio pudesse retomar, foi rapidamente capturada e todos os seus participantes executados.

A presença portuguesa limitava-se, por isso, a pequeníssimos territórios junto da costa, constituídos pelas fortalezas e pouco mais. E mesmo a existência desta dependia do equilíbrio de poderes locais (Índia) ou da tolerância e boas relações (China e Japão, enquanto durou). Quem já esteve em Macau terá visto as portas, que os locais podiam fechar se quisessem, matando os portugueses à fome. Os portugueses estavam à sua mercê.

Algo parecido passava-se com os espanhóis em Manila, nas Filipinas. Aliás, os espanhóis, em êxtase depois da sua “conquista” da América Central e do Sul, pensaram até, inicialmente, em tentar “conquistar” a China, um plano que rapidamente abandonaram quando perceberam a escala do que estava em causa – e a falta de ajuda dos “germes” que tinham sido essenciais no caso americano.

No século XVI, os portugueses conseguiram conquistar Ormuz (por Afonso de Albuquerque, em 1507), controlando assim a entrada no Golfo Pérsico. Mas, para poderem ter o monopólio do transporte de especiarias para a Europa (ou seja, para aumentarem tremendamente o custo do transporte terrestre), precisavam de controlar também Aden (atualmente no Iémen), controlando assim o Mar Vermelho. Sempre em guerra com os Otomanos (por vezes apoiados por Veneza), os portugueses nunca conseguiram controlar este porto por mais do que pouco tempo.

O livro de Sanjay Subrahmanyam, centrado no caso da Índia, mostra bem como Portugal era tantas vezes pouco mais que um peão num mundo de actividade que existia na Ásia (a primeira edição deste livro encontra-se traduzida para português – já a vi à venda no Museu do Oriente).

Só no Brasil, já em pleno século XVIII, Portugal colonizou o interior, mas apenas pequenas áreas e num contexto muito específico relacionado com a extração e transporte do ouro. Até lá, só uma fina parte da costa estava ocupada (e foi por pouco que os holandeses não desalojaram os portugueses da Baía de forma permanente).

Em resumo: nunca existiu império territorial. E mais: Portugal nunca ficou rico devido a quaisquer impérios. Mesmo quando o império mais importou para a economia portuguesa – no século XVIII e não no XVI – foi apenas com moderação. Sem o império, o rendimento per capita do país teria sido, já no século XVIII, um quinto ou um quarto mais baixo, no máximo. Antes, o impacto foi ainda menor. Não é negligenciável, mas não foi suficiente para travar o atraso que se instalava relativamente à fronteira europeia. E mais, com a inevitável perda do Brasil que aí viria, era um motor de crescimento com os dias contados.