Em “Com os Holandeses”, J. Rentes de Carvalho errou

Parece que o escritor J. Rentes de Carvalho começa a ser mais conhecido em Portugal. Vi esta notícia ontem, mas por acaso tinha lido, há algum tempo, quando passei a viver na Holanda, um livro dele intitulado “Com os Holandeses”. Apesar de ter algumas passagens com graça (e até muitas piadas pouco “politicamente corretas”), achei que era um livro recheado de clichés e de um certo populismo, provinciano e alarmista. Envereda frequentemente por generalizações não justificadas e não generaliza quando deveria generalizar. Além disso, estritamente num plano artístico, não achei a escrita nada de especial.

Mas vou deixar a questão mais artística de lado, para me focar nos temas que tocam a este blogue.  O livro foi escrito nos anos 70, com uma segunda edição em 1981. Com o processo de desenvolvimento em Portugal, muito do que então Rentes de Carvalho atribuía a diferenças culturais imutáveis dos portugueses já desapareceu. Isto põe em questão o princípio de atribuir os problemas deste país a atributos culturais, como foi enfatizado no título do artigo do Observador: “Somos um país de medricas, de gente subserviente”.

O PIB português por pessoa (em PPP’s ou seja, ajustado à inflação, com o ano base em 1990) era 7063 dólares em 1973, quando o livro foi publicado. Na Holanda, era quase o dobro: 13082 no mesmo ano. Escreve o autor: “[A] diferença entre os países ricos e pobres, em vez de diminuir, vai aumentando” (p. 139). No que toca à relação Portugal-Holanda, a História veio mostrar que estava errado. Em 2010, o PIB português por pessoa viria a ser de 14270 (cerca do dobro do que era em 1973) e o holandês 24303. Ou seja, uma diferença relativa menor do que aquela que existia em 1973.

Mas ainda mais importante é que, quando essa frase foi escrita não representava, de todo, a convergência que tinha acontecido em Portugal com a fronteira europeia nos 20 anos anteriores: em 1953 o rendimento holandês por pessoa era de 6543 dólares. O português, no mesmo ano, era de 2298. Ou seja, o período em que o autor pensou e escreveu o livro (dos anos 50 aos anos 70) foi o mesmo em que a diferença do rendimento por pessoa português passou de cerca de 1/3 do holandês para metade.

Numa perspectiva mundial, o erro veio a revelar-se ainda maior, já que o período decorrido desde 1973 inclui o processo de maior e mais rápida saída de pessoas do estado de pobreza em toda a História, nomeadamente com o arranque de desenvolvimento da China, a partir de final dos anos 70, e da Índia, a partir do início dos anos 90. Em resumo, tanto em relação a Portugal como à escala global da economia, não teria sido possível estar mais errado do que dizer que “[A] diferença entre os países ricos e pobres, em vez de diminuir, vai aumentando” (p. 139).

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Este livro demonstra pois um provincianismo atroz que várias décadas a viver no estrangeiro não foram capazes de mitigar. Por exemplo, Carvalho cita um dicionário de língua neerlandesa que define o conceito holandês de Akties como a “formalização e exteriorização conjunta de uma luta, tendência, aspiração, ou esforço” (p. 76). Diz que é um conceito que caracteriza a personalidade dos holandeses.

Mas basta lembrar certas “modas” que também surgiram em Portugal, como o “Je suis  Charlie” ou o pico de apoio aos imigrantes quando apareceu a fotografia da criança morta na praia, movimentos que morreram tão depressa como nasceram. Nisto, Portugal está hoje completamente inserido na normalidade europeia, sendo as redes sociais mais uma consequência do que uma causa dessa integração.

As suas acusações, certamente justificadas, sobre a forma como os holandeses tratavam os portugueses emigrados (p. 47), são atribuídas à sua cultura e natureza. Mas esse tratamento não terá sido muito diferente do que, infelizmente, tantos brasileiros ou romenos viriam a receber em Portugal por volta de 2004-5. As suas acusações sobre a prática de utilização de “lares de terceira idade” (p. 51-52), em vez de um núcleo familiar alargado, também se viriam a repetir em Portugal décadas mais tarde.

Aos erros com os números juntam-se frases que factualmente, são incorrectas. Por exemplo: “Portugal … é hoje [1973/1981] o país mais pobre da Europa” (p.168). Será que a Europa de Leste não fazia parte da Europa? Dizer isto quando Portugal estava em franco crescimento, com as maiores mudanças da sua História, é típico de um certo tipo de escritores, jornalistas e “especialistas” em ciências sociais que têm medo de números, mas que, mesmo assim, querem falar da sociedade, com resultados que não são os melhores. Diz o autor:

“[Na Holanda] pobres como nós em Portugal temos, com fome, com frio, em andrajos, mostrando as chagas para que lhes dêem pão, não há” (p. 44)

“[Em Portugal as ruas e praças estão] cheias de mendigos, esfomeados, doentes, crianças abandonadas, todos a estender a mão à caridade” (p. 168)

Apesar de, infelizmente, ainda haver muita pobreza em Portugal (há em todo o lado, e posso-vos garantir que aqui na Holanda também há, apesar de evidentemente menos do que em Portugal, ainda hoje), não me parece que possamos dizer que estas frases caracterizam hoje bem o país. E é preciso não esquecer que, apesar da Holanda ser um país em que a fuga aos impostos não é bem vista pelos seus cidadãos (em contraste com o que frequentemente acontece em Portugal), este país tem desempenhado um papel importante como paraíso fiscal para imensas empresas, inclusivamente portuguesas. Como escreve a revista The Economist: “On a roundabout near one of the main roads into Amsterdam sits a drab office block which is home to hundreds of multinationals—on paper.” Ou seja, se a Holanda é hoje tão rica, isso deve-se, em parte, a uma política que fico feliz por não ser prática corrente em Portugal.

Explicações culturais “fáceis” não são satisfatórias, até porque a cultura muda com o tempo. Mas, como já expliquei aqui, não pretendo negar que ela possa ser importante para compreendermos diferenças de desenvolvimento. Tudo depende de quais são as circunstâncias. Seja como for, Portugal até podia ser “um país de medricas, de gente subserviente” nos anos 1970, e ainda mais quando o autor saiu do país há 60 anos. Talvez. Mas hoje, no momento em que o autor dá a entrevista, não. Hoje é até um país onde há muita gente a querer ter opinião sobre quase tudo, mesmo estando mal informados, e estando absolutamente convencidos que têm razão.

Também nesta entrevista ao Observador, Carvalho faz várias observações sobre a suposta psicologia dos portugueses, o que me parece completamente desajustado à realidade de hoje. Convém reconhecer, no entanto, que Carvalho não está errado em tudo. Por exemplo, as considerações comparativas que faz, na entrevista, sobre a cultura do almoço em Portugal vs. na Holanda, são a meu ver verdadeiras. Mas parece-me que o autor escreve essencialmente sobre um Portugal que terá talvez conhecido em Trás-os-Montes e Viana há mais de 60 anos, mas que já não existe. Posso garantir que, ao contrário do que afirma, as portuguesas da minha geração (que são quem irá definir o futuro) já não têm uma “condição de fêmea”, nem se apresentam “inseguras, fracas, submissas e obedientes”. E ainda bem.

 

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5 thoughts on “Em “Com os Holandeses”, J. Rentes de Carvalho errou

  1. Pode não gostar da prosa do rentes de Carvalho. Admite-se. São gostos.
    Mas essa de se agarrar a estatísticas, citações e “dados” para desmentir o facto de sermos uma sociedade atrasada revela uma “juventude” académica que só evidencia que não sabe de que é que o Rentes está a tratar.
    Ó maior ou menor uso dos telemóveis e do fecebook não pode ser considerado indicador de um qualquer estádio de desenvolvimento. Porque nós não “estamos” atrasados: “somos” atrasados. E os genes desse subdesenvolvimentos estão profundamente inscritos na matriz cultural em que nos formámos.
    Para apreender isso é preciso ser capaz de olhar e captar a realidade social como só alguns escritores conseguem. Rentes de Carvalho, pelos livros que escreveu, foi um deles.
    Mas se nos ficarmos pelos livros e informação bibliográfica sobre Portugal, dava-lhe um conselho: não despreze ou apouque, assim tanto, os Rentes de Carvalho que lhe surgirem. Leia-os com atenção, mesmo não concordando, mas admitindo sempre que por ali possa haver algo de verdade que nos escapa mas que pode ser interessante. Como se lê Eça e Camilo, por exemplo.
    Admito que você tenha boa intenção. Que queira mesmo perceber este país, mais do que “ganhar debates”.
    Porque se não, o que apetece dizer é que essa ideia que você tem de um Portugal já desenvolvido, só pode vir de livros que tenha lido. Só pode mesmo!

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    1. Este comentário mostra bem como as ideias feitas sem qualquer base comparativa têm muita dificuldade em morrer, e são, para algumas pessoas, imunes a argumentos quantitativos. A “lógica” parece ser: para quê olhar para a evidência empírica se os grandes escritores já determinaram todos que os portugueses são inferiores e assim sempre será?

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  2. Calma!
    Pelo tom e pelos argumentos até parece que a o Sr. Npalma se apresenta como um alter-ego do autor.
    Mas vamos ao que interessa:
    As minhas ideias, como todas, são “ideias feitas”. Procuro que não sejam empedernidas. Porque mais que defendê-las, quero reconhecer-lhe utilidade heurística. Quero que me ajudem a perceber o mundo em que estamos metidos. Começando por este cantinho a que chamamos Portugal.
    Mas digo-lhe uma coisa, Sr. Npalm: tenho muito mais gosto em mudar de ideias, ou deitar ideias velhas – “feitas”, diria você – para o lixo de modo a perceber melhor as coisas, do que ficar-me numa de “ter razão” ou “ganhar debates” e aumentar a minha ignorância. Mas as ideias velhas também são precisas. Sem elas, sem reconhecermos o que elas tinham de errado, não progredimos para as novas. Que só são novas conjunturalmente, como é óbvio.
    Quando eu refiro os autores – Eça, Camilo ou Rentes de Carvalho – estou a tentar salientar e reconhecer muita importância a uma forma ou via de apreensão da realidade que diverge e deveria complementar a leitura estatística de indicadores quantitativos. (Não se se me faço entender).
    Há pouco – dois ou três anos – um intelectual português (o que escreveu “O Labirinto da Saudade”) – afirmou que ainda não se sabe muito sobre a guerra colonial porque ainda não se escreveram muitos romances. É preciso mais ficção para que a realidade se torna mais evidente. Percebe isto?
    Agora deduzir que, tendo eu uma “ideia feita” por um grande autor, já não preciso de “ver a realidade”… por amor de Deus! Nesse caso, para quê ir ler outro grande autor?
    Poderia explicar-lhe que a “evidência empírica” a que se agarra é mais determinada cultural e ideologicamente do que normalmente se pensa. Mas, sinceramente, não sei a que nível de explicação haveria de posicionar o discurso.
    Fico-me por aqui: que “evidência empírica” é que tem como referente para entender que não somos atrasados?

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  3. Confirma-se, portanto que o um e o outro são afinal o mesmo!
    Quando, como resposta, me “mandam” ler… está tudo dito.
    Eu ler leio. Leio até muito. Até lixo. Faz tudo parte do mundo em que vivemos.
    Agora, convenhamos, há coisas mais interessantes.
    Aproveite e siga o seu próprio conselho, a que eu acrescento um pitadinha: antes de desatar a escrever, leia e, sobretudo, tente perceber.

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