Na busca das origens de um Portugal pobre (I)

Este é o primeiro de uma série de posts que vou escrever sobre a as razões que podem explicar porque é que Portugal entrou pobre no século XX. É uma questão fundamental para compreendermos toda a evolução da economia, da sociedade e da política portuguesa desde então. A discussão feita neste e nos próximos posts vai basear-se num novo paper, acabado de sair, e que poderão encontrar aqui.

Um tema omnipresente neste blog é o “milagre” que aconteceu em Portugal entre (aproximadamente) 1950 e 2000. Não me canso de insistir que, apesar das dificuldades que atualmente atravessa, Portugal é hoje um país rico — tanto em termos absolutos como em comparação com a maioria dos outros países do mundo. Embora compreenda que seja difícil admitir este facto para quem vive em Portugal e se sente afundado nos nossos (reais e graves) problemas, isto não deixa de ser um facto.

Essa situação favorável de Portugal, em comparação com outros países, é relativamente recente, já que, até meados do século XX, Portugal era bastante pobre —  muito mais pobre que a grande maioria dos outros países da Europa Ocidental na mesma altura.

Até há pouco tempo não era possível saber quando é que Portugal se tinha tornado mais pobre que os outros países europeus. Teria sido sempre assim? Será que, época dos Descobrimentos, Portugal não teria estado melhor? Não era possível saber.

É por isso que foi necessário calcular estimativas quantitativas de longo prazo que pudessem ser comparadas com as de outros países. Neste novo paper, Jaime Reis e eu calculamos o PIB Português entre 1500 e 1850. É a primeira vez que isto é calculado. E temos estimativas anuais, o que se tornou possível graças aos trabalhos desenvolvidos no âmbito do projeto Preços, Salários e Rendas.

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Como é possível calcular o PIB para este período? Nesse tempo ainda não existia a noção de PIB (e muito menos o INE!). Os detalhes estão no artigo, mas a ideia básica é a seguinte. Existem instituições (como mosteiros, hospitais e a Universidade de Coimbra) que funcionaram ao longo de todo o período estudado e que possuíam livros de contabilidade bem organizados, os quais chegaram aos nossos dias, estando hoje depositados na Torre do Tombo. Foi possível assim consultar essas fontes e conhecer a evolução dos preços e salários ao longo do tempo.

O salário real de um trabalhador típico (por exemplo, um carpinteiro) pode ser deduzido dividindo o salário nominal (em unidades monetárias da época, reais) por um cabaz de compras. Isto inclui o preço de bens como pão, carne (pouca), ovos, galinhas, vinho, azeite, carvão e linho. Desta forma, e com algumas hipóteses adicionais, o PIB pode ser reconstruído.

Em próximos posts voltarei a falar deste artigo, mas ficam aqui, para já, algumas conclusões importantes. Nós mostramos que existiu um período de cerca de 200 anos, aproximadamente entre 1550 e 1750, de crescimento económico per capita. De facto, na altura do terramoto, em 1755, o PIB per capita estava cerca de 70% acima do seu nível de 1530, o que corresponde a um crescimento de 0,24% ao ano. Esta taxa pode parecer baixa à luz do que estivemos habituados na segunda metade do século XX, mas era muito alta para a época (note-se que isto não é igual a 70/225 = 0,31, porque a forma correta de calcular corresponde à fórmula de crescimento composto).

O facto dessa taxa de crescimento ser muito boa, no contexto de economias pré-modernas, é ilustrado por comparação com o trabalho de Gregory Clark, historiador económico escocês que trabalha numa universidade na Califórnia. Num trabalho que está traduzido em português com o título “O Adeus às Esmolas”, este autor afirma que as economias pré-modernas não cresciam, a não ser por pequenos períodos de tempo, logo revertidos. Clark insurgia-se assim contra as bem conhecidas estatísticas de Angus Maddison, de acordo com as quais a Europa Ocidental (incluindo Portugal) tinha crescido (em termos per capita) durante a época 1500-1820.

Numa recensão de um livro de Maddison, Clark escreveu uma vez que as estatísticas do primeiro eram tão falsas quanto as relíquias medievais. Tinha alguma razão em afirmar que as famosas estatísticas de Maddison tinham pés de barro. Estas eram, de facto, para o período antes de 1820, “guesstimates”, ou seja, essencialmente inventadas. Mas como este recente artigo documenta [também disponível em versão de acesso livre aqui], nos últimos 10 anos os historiadores económicos têm feito imensos progressos no sentido de obter estatísticas reais (incluindo a série de Jaime Reis e minha para Portugal que aí é citada ainda em versão manuscrita) e os resultados têm sido mais próximos dos de Maddison do que dos Clark.

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O livro de Clark não deixa, apesar de tudo, de ser uma das obras mais importantes de história económica das últimas décadas. No entanto no que respeita a Portugal nós mostramos que Clark estava errado, à semelhança do que outros autores têm concluído relativamente a outras economias europeias (ver o gráfico deste post). Aliás, repare-se que, no caso português, não só há crescimento per capita, mas que ele se verifica ao mesmo tempo que um crescimento da população, durante um longo período de tempo (o que contradiz o modelo de Malthus). Outros autores conhecidos, como Prescott e Hansen, ou Galor, também insistem, tal como Clark, que nunca houve crescimento sustentado per capita na Europa antes de 1800. A evidência que tem emergido nos últimos 10 anos não confirma, de todo, essa ideia.

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Mas então como é que Portugal chegou ao século XX mais pobre que outros países da Europa Ocidental? A tabela acima, tirada do nosso artigo, mostra o rendimento por pessoa em Portugal em unidades comparáveis no tempo e também com outros países (dólares “internacionais” GK de 1990). No artigo, também mostramos um método de cálculo alternativo, que sugere que o atraso relativo surgiu ainda mais tardiamente, ainda que apenas um pouco.

Não existiu qualquer divergência significativa entre Portugal e outros países europeus (com a excepção dos líderes, a Inglaterra e Holanda) até final do século XVIII. Não queremos dizer, com isto, que a “semente” da divergência futura não pudesse já estar aí a ser plantada (tal como muitos dos problemas que estamos a verificar hoje na nossa economia são em grande parte um resultado de más decisões tomadas nos anos 80 e 90, quando Portugal estava a crescer bastante).

Mas sem dúvida que a divergência económica efetiva, relativamente a outros países, é essencialmente um fenómeno do século XIX. Deveu-se essencialmente à industrialização dos outros, que Portugal não acompanhou. A partir do século XIX a maior parte dos países da Europa Ocidental começaram a crescer muito rapidamente, enquanto Portugal, assim como o sul da Itália, e em menor grau, grade parte da Espanha ficaram parados.

Quais foram os motivos dessa divergência? Porque não foi Portugal capaz de proceder à sua industrialização e entrar na era de crescimento económico moderno na primeira metade, ou mesmo na segunda metade, do século XIX? (Relembre-se que só o foi a partir dos anos 50 do século XX que este crescimento se inicia em Portugal). Neste post centrei-me apenas na medição do crescimento do rendimento ao longo do tempo, o que é crucial para estabelecer factos. Antes de pensarmos em explicações, devemos ter os factos na mesa. Num post futuro abordarei possíveis explicações.

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