Porque estava o país em declínio durante os “Descobrimentos”?

No post anterior sugeri que, para compreendermos porque estava Portugal em declínio económico no século XVI (e provavelmente também estaria durante o XV), seria preciso ter em conta a situação do país em finais da idade média. Na verdade, será conveniente ir ainda um pouco mais para trás, até c. 1300.

António Castro Henriques, um jovem medievalista e historiador económico português fora de série, mostrou recentemente que Portugal, por volta dessa época, era bem mais rico que a Inglaterra (apesar de menos do que a Espanha).

Inglaterra

Portugal

Produto agrário a preços constantes (GK) de 1990, c.1300

12.5

18.8

População (milhões), c.1300 4.25

1.01

Nota: o produto agrário é a parte do PIB correspondente ao sector agrícola

O que é importante reter é que, por volta de 1300, Portugal e Espanha seriam certamente dos países mais ricos da Europa. Porquê?

Old Compass

A ideia chave (originalmente proposta no contexto Espanhol aqui) é que estas eram, nessa altura, economias de fronteira, um pouco como o faroeste americano no século XIX. Ou seja, à medida que a Reconquista avançava, não havia falta de terras, e isto implicava que, para um dado nível tecnológico, em média cada pessoa (do lado Cristão) tinha bastantes terras e alimentos disponíveis. No caso português, a conquista do Algarve tinha terminado na segunda metade do século XIII, e por isso, por volta de 1300 não haveria falta de terras.

Com a consolidação política, é natural que essa situação acabasse e a população começasse a aumentar, mas logo depois, em meados do século XIV, a peste negra também terá matado muita gente, o que implicaria que os que restavam tinham mais terras. Finalmente, nas décadas seguintes a demografia teria finalmente aumentado, o que implica que (para uma tecnologia aproximadamente constante) finalmente os rendimentos disponíveis descessem. Talvez isto até ajude a compreender a vontade de expansão para o Norte de África, efectivamente o princípio dos “Descobrimentos”. Seja como for, a evidência parece ser de que na primeira metade do século XVI – e provavelmente também no século anterior, mas sobre isto os dados são por enquanto mais limtados – o país estava em declínio.

Num post futuro falarei sobre a recuperação a partir de meados do século XVI. Mas para variar, no próximo post falarei do século XX.

Bibliografia

Henriques, A. (2015). Plenty of land, land of plenty: the agrarian output of Portugal (1311–20). Forthcoming, European Review of Economic History

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