Como resolver a estagnação de Portugal?

Fernando Alexandre, no TEDx Braga, refere-se ao enorme problema em que Portugal se encontra hoje, e sugere algumas soluções importantes. Os seus livros Crise e Castigo (com co-autores Luís Aguiar-Conraria e Pedro Bação) e o vindouro Poupança e Financiamento da Economia Portuguesa (com os mesmos co-autores e ainda Miguel Portela) são de leitura fundamental para quem queira perceber a situação actual do país.

Obrigado ainda por se referir à minha investigação (que também é do Jaime Reis).

Fica aqui a notícia do ECO.

 

Alguns artigos recentes

A minha estreia no ECO: Na busca das origens de um Portugal pobre

O meu último artigo no Observador: Portugal é pobre e a culpa é dos outros. (Será verdade?)

Para algumas respostas sobre o problema da falta de crescimento em Portugal (que também levantei em Qual deveria ser o debate?), ver o recente artigo A austeridade não tem cor nem sexo, de Fernando Alexandre, e também, para uma análise mais detalhada, o excelente livro “Crise e Castigo” publicado pela FFMN.

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Qual deveria ser o debate?

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Para arquivo e para quem não tenha visto, fica aqui o meu artigo de hoje no Observador.

Tendo agora voltado a ler, deixo algumas clarificações:

a) no primeiro parágrafo eu tinha a intenção de escrever a dívida (stock) pública, e não do défice (fluxo), mas apesar de menos convencional a frase está na mesma certa desde que correctamente interpretada. Ou seja, dívida sustentável implica haver alguma variação do défice mas ainda assim um rácio dívida-PIB mais ou menos constante. Mas também pode-se dizer que um nível de défice é sustentável. Isto é, com esse défice, o governo será capaz de honrar a dívida futura. O défice implica um rácio dívida-PIB decrescente ou aproximadamente constante.

b) Os valores em dólares correspondem a rendimento anual em paridades de poder de compra (PPPs), podendo por isso ser comparados no tempo e no espaço

c) O objectivo aqui foi chamar a atenção para qual o debate público mais importante para Portugal neste momento. Sem ilusões de que tenha todas as respostas, no futuro irei escrever sobre quais são, do meu ponto de vista, os problemas mais importante que estão a impedir a economia de crescer, e como os resolver.

A grande divergência da Lusofonia

Este gráfico mostra o o rendimento anual médio por pessoa, em Portugal, Brasil, e actuais PALOPs entre 1870 e 2010. Os dados são comparáveis no tempo e no espaço, estando corrigidos para os efeitos da inflação e de diferentes preços a nível local (paridade de poder de compra). Por isso, estas diferenças de rendimento representam diferenças reais de poder de compra.

Picture1O gráfico ilustra quanto é possível aprender prestando atenção a comparações quantitativas. Algumas conclusões:

1. Antes de mais, o extraordinário sucesso português desde 1950;

2. Até anos anos 50 do século XX, Portugal não era muito mais rico que os outros países deste grupo, que hoje tomamos como um dado adquirido serem pobres. Estamos por isso a falar de uma época que nos é contemporânea: muitos dos meus leitores terão nascido por essa altura (*);

3. Para Portugal, a magnitude do aumento é francamente impressionante: o rendimento por pessoa em Portugal aumentou 14 vezes em termos reais desde princípio do século XX, e 7 (sete!) vezes em termos reais desde 1950;

4. A parte mais rápida deste espectacular progresso é anterior à entrada na CEE, e aliás, é mesmo anterior à democracia. No entanto, é em grande parte contemporânea à maior integração europeia que já estava a haver desde a EFTA, e também é preciso ter em conta que, desde que as condições certas estejam presentes, é mais fácil crescer rapidamente quando se é muito pobre (**);

5. Não houve nenhum progresso sequer semelhante ao que se passou em Portugal para os outros países onde o Português é usado como língua oficial. Em segundo lugar ficou o Brasil, que “apenas” conseguiu multiplicar os rendimentos por 7 desde 1870, ou duplicar de rendimento por pessoa entre os anos 60 do século XX e a atualidade

6. Os PALOPs são quase tão pobres hoje como sempre foram. Alguns conseguiram multiplicar o rendimento inicial por 3 ou 4, o que ainda é menos impressionante tendo em conta que partiram de uma situação inicial desde logo muito baixa – rever a nota (**);

7. Voltando a Portugal, os efeitos da crise dos últimos anos, sendo importantes, são completamente esmagadas pelo espectacular progresso anterior. (Este gráfico só vai até 2010, devido a falta de dados comparativos mais recentes, mas o PIB p.c. de 2015 ainda andará por volta dos 14 000). Não estou a dizer que a crise não é importante mas apenas que é preciso não esquecer o progresso anterior.

8. Ainda em relação à crise, é crucial ver que ela não veio do nada – foi antecedida por uma repentina travagem da economia por volta da entrada no novo milénio. Mas por mais que o presente nos preocupe, é preciso não esquecer que não é a crise a parte mais importante desta História. Perceber isto é, aliás, um dado importante para poder planear bem o futuro.

Fonte para os dados: Maddison project

Notas explicativas adicionais

(*) Aliás, precisamente até aos anos 50 do século XX, o Brasil recebia imensos emigrantes de Portugal. Isto sugere que existiam mais oportunidades no Brasil – pelo menos para os brancos. Note-se que o rendimento (ou PIB) por pessoa é uma média, sendo por isso perfeitamente possível que, no Brasil, até relativamente tarde as “elites brancas” tivessem mais rendimento por pessoa que os portugueses medianos, o que levaria muitos dos últimos a emigrar para lá. Algo parecido também poderia ser verdade em relação aos colonos nos actuais PALOP: teriam rendimentos mais elevados que os portugueses da “metrópole”, apesar deste caso a situação ser um pouco diferente.

(**) Todos os países que crescem a dois dígitos por ano durante uma década ou mais fazem-no partindo de uma situação inicial desfavorável. É por isso que, por exemplo, a China crescia a mais de 10% ao ano desde os anos 90 e até alguns anos atrás, mas agora só consegue crescer a 6 ou 7%. É fácil perceber isto com um exemplo. Imagine-se um país onde existem apenas 10 casas. Neste país, se for construída mais uma casa num ano, o número de casas aumentou 10%. Agora pensemos noutro país com a mesma população, mas mais rico, onde existem 100 casas. Se nesse país forem construídas 5 casas, o número de casas apenas cresceu 5% nesse ano, apesar de terem sido construídas 5 vezes mais casas que durante o mesmo período no outro país. De forma mais geral, quando se é muito pobre, pequenas melhorias fazem uma grande diferença. Na saúde e educação, por exemplo, os maiores ganhos para a produtividade dos trabalhadores são logos os iniciais: o primeiro ano de escolaridade é o mais importante de todos porque a diferença entre ser analfabeto e saber ler e escrever é muito maior que a diferença entre ter o 9º e o 10º ano. Por mais importante que possa ser a matéria do décimo ano.

 

‘Non’, ou A Vã Glória

Agora que os ânimos sobre a Grécia acalmaram (e enquanto a questão não voltar a aquecer, como acontecerá a médio prazo), é a altura certa para falar dos problemas que temos de resolver com serenidade na Europa.

Do meu ponto de vista, existe excessiva atenção mediática à volta dos assuntos económicos de “curto prazo”, e por isso, em geral, evito falar desse tipo de assuntos. Esse exagero contrasta com a falta de atenção dada aos assuntos numa perspetiva histórica, alguns dos quais seculares ou de “longo prazo”, que ironicamente são, ainda por cima, os mais importantes para a determinação do verdadeiro bem-estar das pessoas. Exemplo disto é a política económica de “curto prazo”, à qual é dada uma excessiva atenção relativamente às políticas de longo prazo, até por motivos políticos. Mesmo assuntos de “longo prazo” como a reforma da segurança social só são falados quando os problemas estão já a bater à porta.

No entanto, a resolução dada a alguns assuntos de “curto prazo” pode ter importantes implicações para o longo prazo, e penso que esta questão das crises das dívidas soberanas na Grécia na Europa é um desses casos.

Quando o referendo grego foi anunciado, eu escrevi neste post que as promessas do Syriza não eram realistas. O Syriza estava a enganar o povo. Terminar a austeridade não seria de todo possível. Eram promessas contraditórias. Criticar e dizer NÃO é fácil. Apresentar soluções alternativas viáveis é mais difícil. Mesmo um historiador económico conhecido por ser crítico da “austeridade” em tempos de recessão, criticou a ideia do referendo e a ingenuidade dos que votaram “não”.

Os apoiantes do “não”, mais de 60% dos gregos e uns tantos fora da Grécia (incluindo um sem-fim de comentadores incautos em Portugal), gritaram de felicidade ao saber o resultado, mas é consensual que o acordo final é muito mais “austero” que o originalmente rejeitado.  A revista The New Yorker, por exemplo, chamou-o de humilhante. O Público escreveu que “convidada a sair do Euro, a Grécia cedeu em quase tudo”. Até Krugman, que deu tanto peso aos argumentos dos defensores do NÃO, já admite que terá “sobrestimado a competência do Governo grego”. (Depois também se veio a saber que o Varoufakis, que eu tinha criticado aqui, estava a planear um Grexit que além de ilegal facilmente poderia ter criado uma crise financeira de proporções Bíblicas.)

Podia ser que o governo grego estivesse a fazer bluff, uma possibilidade que eu na altura critiquei aqui e aqui, mas se assim foi o bluff falhou. A ironia da (aparente) viragem do Syriza numa direção contrária a tudo o que sempre defendeu, e aos ideais pelas quais foi eleito e pelos quais venceu as primeiras eleições e o referendo, poderá parecer familiar aos brasileiros que se lembram do presidente Fernando Henrique Cardoso, logo após ser eleito, ter dito “esqueçam tudo o que eu escrevi”.

Apesar disto, os Gregos elegeram outra vez o Syriza recentemente, por ser visto com o único partido que “enfrenta a Alemanha”. A lição que retiraram do que aconteceu não foi que o Syriza tinha estado a mentir (ou era incompetente), mas sim que sem eles ainda seria pior. Seria melhor se os gregos (tal como os portugueses) olhassem mais para dentro, para a sua parte da culpa, em vez de se deixarem levar apenas pela atitude fácil de apontar o dedo a “eles”: a “troica”, os “interesses capitalistas escondidos”, etc, etc, que estão lá fora.

Portugal e o “efeito salsa” (ou: será que os ricos são mais felizes?)

A evidência que temos parece indicar que sim. Quanto mais rico um país, maior a felicidade média reportada pelas pessoas:

Each Doubling of GDP is Associated with a Constant Increase in Life Satisfaction - Deaton

Mas não só isto é verdade com também é verdade que dentro de cada país, existe uma correlação positiva entre rendimento e felicidade estimada:

Distribution of Estimates of the Within-Country Life Satisfaction–Income Gradient - Stevenson & Wolfers (2008)

Em linguagem económica, cada unidade monetária tem um retorno marginal decrescente. Isto faz sentido: bens de luxo como viagens ao estrangeiro são agradáveis, mas não só são muito mais caras como não são tão essenciais para o nosso bem-estar como os bens mais básicos.

Mas nem todos os países são iguais. Note-se que em Portugal o nível de bem-estar subjetivo é bastante inferior ao de países bastante mais pobres, como essencialmente quase todos os da América Latina, incluindo mesmo alguns consideravelmente mais pobres, como o México, a República Dominicana ou o Guatemala.

O bem estar subjetivo é aqui medido através de inquéritos em que as pessoas respondem a perguntas do tipo: sense-se satisfeito com a sua vida? A conclusão é que existem algumas variáveis determinantes para o bem estar — possivelmente de natureza cultural — que fazem que sejamos mais infelizes do que outros países bastante mais pobres. (No caso da América Latina o contrário é verdade; é isso o “efeito salsa”.)

Subjective-well-being-SWB-per-capita-gross-domestic-product-GDP-and-different-types-of-societies-Inglehart-Welzel-and-Foa

Também retiramos daqui que a distância de bem-estar da Europa do sul em relação a países do Norte da Europa como Reino Unido, Finlândia, Holanda, Noruega ou Dinamarca é ainda maior do que a sugerida apenas pelas diferenças de rendimento. (É interessante e bastante significativo verificar que a Alemanha é a exceção a esta regra.) Mas podíamos estar pior — no caso dos países da Europa do Leste, o efeito negativo parece ser ainda mais forte.

Referências

Deaton (2008). Income, Health, and Well-Being around the World: Evidence from the Gallup World Poll. Journal of Economic Perspectives, 22, 2, 53–72.

Stevenson B, J. Wolfers (2008). Economic Growth and Subjective Well-Being: Reassessing the Easterlin Paradox. Brookings Paper Econ Activ (Spring):1–87.

Inglehart, Foa, Peterson, and Welzel (2008). Development, Freedom, and Rising Happiness: A Global Perspective (1981–2007). Perspectives on Psychological Science, 3, 4, 264–285.