Alguns artigos recentes

A minha estreia no ECO: Na busca das origens de um Portugal pobre

O meu último artigo no Observador: Portugal é pobre e a culpa é dos outros. (Será verdade?)

Para algumas respostas sobre o problema da falta de crescimento em Portugal (que também levantei em Qual deveria ser o debate?), ver o recente artigo A austeridade não tem cor nem sexo, de Fernando Alexandre, e também, para uma análise mais detalhada, o excelente livro “Crise e Castigo” publicado pela FFMN.

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Qual deveria ser o debate?

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Para arquivo e para quem não tenha visto, fica aqui o meu artigo de hoje no Observador.

Tendo agora voltado a ler, deixo algumas clarificações:

a) no primeiro parágrafo eu tinha a intenção de escrever a dívida (stock) pública, e não do défice (fluxo), mas apesar de menos convencional a frase está na mesma certa desde que correctamente interpretada. Ou seja, dívida sustentável implica haver alguma variação do défice mas ainda assim um rácio dívida-PIB mais ou menos constante. Mas também pode-se dizer que um nível de défice é sustentável. Isto é, com esse défice, o governo será capaz de honrar a dívida futura. O défice implica um rácio dívida-PIB decrescente ou aproximadamente constante.

b) Os valores em dólares correspondem a rendimento anual em paridades de poder de compra (PPPs), podendo por isso ser comparados no tempo e no espaço

c) O objectivo aqui foi chamar a atenção para qual o debate público mais importante para Portugal neste momento. Sem ilusões de que tenha todas as respostas, no futuro irei escrever sobre quais são, do meu ponto de vista, os problemas mais importante que estão a impedir a economia de crescer, e como os resolver.

A grande divergência da Lusofonia

Este gráfico mostra o o rendimento anual médio por pessoa, em Portugal, Brasil, e actuais PALOPs entre 1870 e 2010. Os dados são comparáveis no tempo e no espaço, estando corrigidos para os efeitos da inflação e de diferentes preços a nível local (paridade de poder de compra). Por isso, estas diferenças de rendimento representam diferenças reais de poder de compra.

Picture1O gráfico ilustra quanto é possível aprender prestando atenção a comparações quantitativas. Algumas conclusões:

1. Antes de mais, o extraordinário sucesso português desde 1950;

2. Até anos anos 50 do século XX, Portugal não era muito mais rico que os outros países deste grupo, que hoje tomamos como um dado adquirido serem pobres. Estamos por isso a falar de uma época que nos é contemporânea: muitos dos meus leitores terão nascido por essa altura (*);

3. Para Portugal, a magnitude do aumento é francamente impressionante: o rendimento por pessoa em Portugal aumentou 14 vezes em termos reais desde princípio do século XX, e 7 (sete!) vezes em termos reais desde 1950;

4. A parte mais rápida deste espectacular progresso é anterior à entrada na CEE, e aliás, é mesmo anterior à democracia. No entanto, é em grande parte contemporânea à maior integração europeia que já estava a haver desde a EFTA, e também é preciso ter em conta que, desde que as condições certas estejam presentes, é mais fácil crescer rapidamente quando se é muito pobre (**);

5. Não houve nenhum progresso sequer semelhante ao que se passou em Portugal para os outros países onde o Português é usado como língua oficial. Em segundo lugar ficou o Brasil, que “apenas” conseguiu multiplicar os rendimentos por 7 desde 1870, ou duplicar de rendimento por pessoa entre os anos 60 do século XX e a atualidade

6. Os PALOPs são quase tão pobres hoje como sempre foram. Alguns conseguiram multiplicar o rendimento inicial por 3 ou 4, o que ainda é menos impressionante tendo em conta que partiram de uma situação inicial desde logo muito baixa – rever a nota (**);

7. Voltando a Portugal, os efeitos da crise dos últimos anos, sendo importantes, são completamente esmagadas pelo espectacular progresso anterior. (Este gráfico só vai até 2010, devido a falta de dados comparativos mais recentes, mas o PIB p.c. de 2015 ainda andará por volta dos 14 000). Não estou a dizer que a crise não é importante mas apenas que é preciso não esquecer o progresso anterior.

8. Ainda em relação à crise, é crucial ver que ela não veio do nada – foi antecedida por uma repentina travagem da economia por volta da entrada no novo milénio. Mas por mais que o presente nos preocupe, é preciso não esquecer que não é a crise a parte mais importante desta História. Perceber isto é, aliás, um dado importante para poder planear bem o futuro.

Fonte para os dados: Maddison project

Notas explicativas adicionais

(*) Aliás, precisamente até aos anos 50 do século XX, o Brasil recebia imensos emigrantes de Portugal. Isto sugere que existiam mais oportunidades no Brasil – pelo menos para os brancos. Note-se que o rendimento (ou PIB) por pessoa é uma média, sendo por isso perfeitamente possível que, no Brasil, até relativamente tarde as “elites brancas” tivessem mais rendimento por pessoa que os portugueses medianos, o que levaria muitos dos últimos a emigrar para lá. Algo parecido também poderia ser verdade em relação aos colonos nos actuais PALOP: teriam rendimentos mais elevados que os portugueses da “metrópole”, apesar deste caso a situação ser um pouco diferente.

(**) Todos os países que crescem a dois dígitos por ano durante uma década ou mais fazem-no partindo de uma situação inicial desfavorável. É por isso que, por exemplo, a China crescia a mais de 10% ao ano desde os anos 90 e até alguns anos atrás, mas agora só consegue crescer a 6 ou 7%. É fácil perceber isto com um exemplo. Imagine-se um país onde existem apenas 10 casas. Neste país, se for construída mais uma casa num ano, o número de casas aumentou 10%. Agora pensemos noutro país com a mesma população, mas mais rico, onde existem 100 casas. Se nesse país forem construídas 5 casas, o número de casas apenas cresceu 5% nesse ano, apesar de terem sido construídas 5 vezes mais casas que durante o mesmo período no outro país. De forma mais geral, quando se é muito pobre, pequenas melhorias fazem uma grande diferença. Na saúde e educação, por exemplo, os maiores ganhos para a produtividade dos trabalhadores são logos os iniciais: o primeiro ano de escolaridade é o mais importante de todos porque a diferença entre ser analfabeto e saber ler e escrever é muito maior que a diferença entre ter o 9º e o 10º ano. Por mais importante que possa ser a matéria do décimo ano.

 

‘Non’, ou A Vã Glória

Agora que os ânimos sobre a Grécia acalmaram (e enquanto a questão não voltar a aquecer, como acontecerá a médio prazo), é a altura certa para falar dos problemas que temos de resolver com serenidade na Europa.

Do meu ponto de vista, existe excessiva atenção mediática à volta dos assuntos económicos de “curto prazo”, e por isso, em geral, evito falar desse tipo de assuntos. Esse exagero contrasta com a falta de atenção dada aos assuntos numa perspetiva histórica, alguns dos quais seculares ou de “longo prazo”, que ironicamente são, ainda por cima, os mais importantes para a determinação do verdadeiro bem-estar das pessoas. Exemplo disto é a política económica de “curto prazo”, à qual é dada uma excessiva atenção relativamente às políticas de longo prazo, até por motivos políticos. Mesmo assuntos de “longo prazo” como a reforma da segurança social só são falados quando os problemas estão já a bater à porta.

No entanto, a resolução dada a alguns assuntos de “curto prazo” pode ter importantes implicações para o longo prazo, e penso que esta questão das crises das dívidas soberanas na Grécia na Europa é um desses casos.

Quando o referendo grego foi anunciado, eu escrevi neste post que as promessas do Syriza não eram realistas. O Syriza estava a enganar o povo. Terminar a austeridade não seria de todo possível. Eram promessas contraditórias. Criticar e dizer NÃO é fácil. Apresentar soluções alternativas viáveis é mais difícil. Mesmo um historiador económico conhecido por ser crítico da “austeridade” em tempos de recessão, criticou a ideia do referendo e a ingenuidade dos que votaram “não”.

Os apoiantes do “não”, mais de 60% dos gregos e uns tantos fora da Grécia (incluindo um sem-fim de comentadores incautos em Portugal), gritaram de felicidade ao saber o resultado, mas é consensual que o acordo final é muito mais “austero” que o originalmente rejeitado.  A revista The New Yorker, por exemplo, chamou-o de humilhante. O Público escreveu que “convidada a sair do Euro, a Grécia cedeu em quase tudo”. Até Krugman, que deu tanto peso aos argumentos dos defensores do NÃO, já admite que terá “sobrestimado a competência do Governo grego”. (Depois também se veio a saber que o Varoufakis, que eu tinha criticado aqui, estava a planear um Grexit que além de ilegal facilmente poderia ter criado uma crise financeira de proporções Bíblicas.)

Podia ser que o governo grego estivesse a fazer bluff, uma possibilidade que eu na altura critiquei aqui e aqui, mas se assim foi o bluff falhou. A ironia da (aparente) viragem do Syriza numa direção contrária a tudo o que sempre defendeu, e aos ideais pelas quais foi eleito e pelos quais venceu as primeiras eleições e o referendo, poderá parecer familiar aos brasileiros que se lembram do presidente Fernando Henrique Cardoso, logo após ser eleito, ter dito “esqueçam tudo o que eu escrevi”.

Apesar disto, os Gregos elegeram outra vez o Syriza recentemente, por ser visto com o único partido que “enfrenta a Alemanha”. A lição que retiraram do que aconteceu não foi que o Syriza tinha estado a mentir (ou era incompetente), mas sim que sem eles ainda seria pior. Seria melhor se os gregos (tal como os portugueses) olhassem mais para dentro, para a sua parte da culpa, em vez de se deixarem levar apenas pela atitude fácil de apontar o dedo a “eles”: a “troica”, os “interesses capitalistas escondidos”, etc, etc, que estão lá fora.

Portugal e o “efeito salsa” (ou: será que os ricos são mais felizes?)

A evidência que temos parece indicar que sim. Quanto mais rico um país, maior a felicidade média reportada pelas pessoas:

Each Doubling of GDP is Associated with a Constant Increase in Life Satisfaction - Deaton

Mas não só isto é verdade com também é verdade que dentro de cada país, existe uma correlação positiva entre rendimento e felicidade estimada:

Distribution of Estimates of the Within-Country Life Satisfaction–Income Gradient - Stevenson & Wolfers (2008)

Em linguagem económica, cada unidade monetária tem um retorno marginal decrescente. Isto faz sentido: bens de luxo como viagens ao estrangeiro são agradáveis, mas não só são muito mais caras como não são tão essenciais para o nosso bem-estar como os bens mais básicos.

Mas nem todos os países são iguais. Note-se que em Portugal o nível de bem-estar subjetivo é bastante inferior ao de países bastante mais pobres, como essencialmente quase todos os da América Latina, incluindo mesmo alguns consideravelmente mais pobres, como o México, a República Dominicana ou o Guatemala.

O bem estar subjetivo é aqui medido através de inquéritos em que as pessoas respondem a perguntas do tipo: sense-se satisfeito com a sua vida? A conclusão é que existem algumas variáveis determinantes para o bem estar — possivelmente de natureza cultural — que fazem que sejamos mais infelizes do que outros países bastante mais pobres. (No caso da América Latina o contrário é verdade; é isso o “efeito salsa”.)

Subjective-well-being-SWB-per-capita-gross-domestic-product-GDP-and-different-types-of-societies-Inglehart-Welzel-and-Foa

Também retiramos daqui que a distância de bem-estar da Europa do sul em relação a países do Norte da Europa como Reino Unido, Finlândia, Holanda, Noruega ou Dinamarca é ainda maior do que a sugerida apenas pelas diferenças de rendimento. (É interessante e bastante significativo verificar que a Alemanha é a exceção a esta regra.) Mas podíamos estar pior — no caso dos países da Europa do Leste, o efeito negativo parece ser ainda mais forte.

Referências

Deaton (2008). Income, Health, and Well-Being around the World: Evidence from the Gallup World Poll. Journal of Economic Perspectives, 22, 2, 53–72.

Stevenson B, J. Wolfers (2008). Economic Growth and Subjective Well-Being: Reassessing the Easterlin Paradox. Brookings Paper Econ Activ (Spring):1–87.

Inglehart, Foa, Peterson, and Welzel (2008). Development, Freedom, and Rising Happiness: A Global Perspective (1981–2007). Perspectives on Psychological Science, 3, 4, 264–285.

É importante falar dos consensos

Quantos temos a certeza sobre qual o caminho exato a seguir? Só os dogmáticos.

A verdade é que muitas questões importantes não são questões nada simples e, mesmo assim, toda a gente quer ter uma “opinião”. Mesmo entre os economistas, há imenso desacordo. No entanto, vou aqui argumentar, há bastante menos desacordo entre os economistas do que entre a população em geral, e os políticos em particular (que refletem em grande medida a população).

Um grego de outros tempos, Platão,argumentava na República, talvez um dos textos fundamentais para a sociedade ocidental, que a ignorância das massas deveria levar a elite intelectual a decidir por todos. Deveria um comandante de um barco perguntar aos passageiros como navegar ou seria melhor deixar isso aos especialistas? Felizmente, tais argumentos anti-democráticos estão hoje postos de parte (pelo menos no Ocidente e para já), mas não deixa de ser verdade que é muito importante que a população esteja bem informada para que possa tomar boas decisões.

Infelizmente, nem sempre isso é fácil quando certos jornalistas, políticos, e políticos disfarçados de comentadores dizem um sem-fim de disparates sobre os quais não deveria haver qualquer dúvida, e talvez o jargão ou a retórica convença as pessoas de que sabem do que estão a falar. (Infelizmente, às vezes nem acertam em definições simples sobre taxas de juro, ou não compreendem que a distribuição de credores pode mudar bastante em diferentes maturidades, e isso só pode confundir a população. Os constantes disparates não são inspiradores de confiança, mas isso é outra conversa.)

A verdade é que existe um sem-fim de mitos sobre estes assuntos, que efetivamente não são simples, mas apesar de toda a incerteza, e até ideologia (sim, apesar de tudo os economistas são humanos), pode-se observar um consenso alargado entre os economistas sobre certos aspectos. Nesse sentido, pretendo aqui enfatizar quais são os consensos que existem.

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Em primeiro lugar, existe bastante consenso contra a inflexibilidade de alguns dos credores. Quase todos os economistas e historiadores económicos concordam, por exemplo, que um incumprimento (default) parcial da Grécia é necessário já devia ter acontecido (a Grécia já teve um default parcial em 2012, mas não foi suficiente). Felizmente, o FMI está a reverter a sua posição anterior nesta matéria, mas ainda falta a comissão Europeia.

O primeiro programa do FMI para a Grécia em 2010 foi na verdade também em grande parte uma forma de evitar que bancos Franceses e Alemães expostos à dívida Grega tivessem prejuízos. Nessa altura devia ter havido default, mas hoje isso não é simples, e o BCE não pode (devido ao seu mandato) emprestar aos bancos com base em dívida pública como colateral se sabe que esta pode vir a ser repudiada.

O alívio da dívida seria importante (se acompanhado de promessas credíveis). Mas também existe um largo consenso contra a forma como o Syriza tem gerido a situação. Não digo que seja um consenso absoluto, mas não há dúvida que um invulgar número de economistas geralmente são considerados “de esquerda” criticam o desastre do processo.

Aqui fica um artigo muito recente de Eichengreen em que ambos estes pontos são defendidos. Penso que também é importante ser dito que os países do Sul da Europa têm que aceitar que é preciso fazer certas reformas, e que estas podem a médio-prazo levar a melhorias para quase toda a população. É preciso não dar espaço a populismos políticos. Nem tudo está bem na Europa do Sul (crescimento anémico, altos níveis de desemprego jovem, etc) a ideia de que a culpa é toda “do exterior” é falsa.  No caso da Grécia, o longo historial de expansões económicas insustentáveis com contabilidade nacional aldrabada por motivos políticos, facilidade de fuga ao fisco, etc, tem que melhorar.

Por exemplo, uma reportagem de Fernanda Câncio na Grécia para o DN que anda a circular nas redes sociais dá conta de casos de professores reformados antes dos 50, que trabalhavam 18 horas por semana, nunca foram avaliados, e que estão a receber 1100 euros por mês, depois de um corte de 100 (quando os novos professores recebem 700). Nenhum jovem deve ficar indiferente a isto. Seria possivel citar aqui também trabalhos de natureza mais académica (mas ainda assim acessíveis) que olham para estes problemas de uma forma mais sistemática. 

É importante que o público esteja bem informado e obrigue os decisores políticos a fazer boas escolhas. Nem sempre existe a certeza sobre quais são essas escolhas, mas começar por excluir as que são más de certeza já seria um bom ponto de partida.

O futuro da Europa está nas mãos dos gregos. Que escolham bem.

Pergunta: eu consigo pensar em economistas conhecidos que fazem campanha pelo “não”, como Krugman, Sachs, ou Stiglitz, apesar de haver muitos mais pelo “sim”. Mas não consigo sequer pensar em nenhum académico que seja contra a reestruturação da dívida (desde que acompanhada de reformas credíveis, estas é que podem ser difícies de conseguir). Se conseguirem pensar em alguém que seja contra isto (como é o caso do Eurogrupo) escrevam nos comentários, por favor.

Varoufakis quer ser James Dean

Este é o filme em que a personagem intrepretada por James Dean compete contra outro mancebo no “jogo da galinha”: ambos conduzem da direção de um penhasco e o primeiro a saltar é o “cobardolas”.

Cada mancebo quer quer acima de tudo salvar-se, mas quer também idealmente não ser o primeiro a saltar. Como o vídeo mostra, isso nem sempre dá bom resultado.

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O ministro das finanças do Syriza, talvez por ser especialista em teoria dos jogos, está convencido que está num “chicken game” em que está mesmo disposto a obrigar-se a não saltar antes do “inimigo”. Por isso lembra um pouco a máquina deste outro filme. Só espero que o final do filme que estamos a viver seja melhor.